segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Adeus. Fim

Esta é a última mensagem que deixo neste espaço. Tenho estado à espera do dia 17 de Outubro para o fazer porque nesse dia este «olhar sobre os dias» faz dois anos de existência, mas na verdade não se justifica deixar passar o tempo só para chegar a essa data e nada dizer aos meus leitores que por aqui passam em busca de novidades e nada. Deixarei o blogue on-line por uns tempos porque gostaria de guardar alguns textos que escrevi de que gosto bastante e não tenho tido muito tempo para o ir fazendo.
São três as razões que me levam a encerrar este local de encontro. Primeiro, porque tornou-se mais uma obrigação do que um prazer. E quando assim é, pelo menos para mim, deixa de ter significado. Quando o comecei, escrevia porque tal era uma necessidade íntima, visceral. Estava desempregado, a começar um novo curso, precisava de um espaço em que fosse escutado e de encontro com amigos e família. Hoje as coisas estão, graças a Deus e a alguns amigos, muito diferentes e, por isso, aquela necessidade dissipou-se.
A segunda razão é consequência daquela: hoje tenho muito menos tempo para aqui vir. As aulas, o crescendo de responsabilidades no colégio, o mestrado a que me tenho rapidamente que me dedicar, os manuais de EMRC e o aumento da família, a quem quero dar o máximo de tempo possível, impedem-me de dar a este blogue uma presença que não consigo.
Finalmente, fui-me apercebendo que este espaço foi por vezes (poucas, espero) ou fonte de mal entendidos ou de processos de intenções ou de constrangimentos pessoais e institucionais. Nunca tive essa intenção, afinal foi um pessoal, despretensioso e inócuo blogue onde coloquei reflexões pessoais que nunca tiveram a pretensão nem de ser lei, nem verdade absoluta, nem ajustar contas com nada nem com ninguém e, muito menos, de prejudicar alguém.
Àqueles que aqui vieram com coração limpo, com amizade, com interesse intelectual e com sã curiosidade (e muitos nunca os conheci pessoalmente) aqui fica o meu mais profundo agradecimento pela visita, pela leitura e por alguns comentários. Segundo o Blogger o meu perfil teve 1462 visitas. Segundo o Site Meter, que coloquei muito depois de colocar o blogue on-line, tive 17.557 visitas e 25.374 Page Views. São números, valem o que valem, podem até ser pouco fiáveis, mas sei que muitas destas visitas foram verdadeiros actos de amizade e de liberdade de expressão e de pensamento. E isso não tem preço.
Muito obrigado a todos e até sempre pelos bailes da vida.

domingo, 12 de setembro de 2010

XXIV Domingo do Tempo Comum (Lc 15)

"Este homem acolhe os pecadores e come com eles". Assim definem Jesus os fariseus e os escribas. Se não fosse por murmuração, até podíamos dizer estar perante um elogio de alguém que não faz acepção de pessoas. Mas sabemos que não é assim. Porque criticam estes homens as atitudes, os gestos e as palavras de Jesus? Porque é que acolher e partilhar a mesa é tão grave?
Porque Jesus desconstrói o deus feito pelos critérios, pelos valores e pelas leis humanas. Historicamente os fariseus não eram más pessoas, eram religiosamente comprometidos e observantes da lei de Deus, dada por Moisés; eram contra o poder discriminatório do império romano; estavam bem próximos das populações e das suas misérias; sentiam-se guardiões da pureza do judaísmo. O que Jesus lhes traz é uma novidade, é algo que eles não conhecem: Deus. Um Deus que verdadeiramente não conheciam; um Deus que era justo, mas eles confundiam justiça com castigo e vingança; um Deus que era grande, mas eles confundiam grandeza com distância inacessível; um Deus a quem criam defender a honra e a santidade, mas que a Sua única preocupação era procurar o que estava perdido e alegrar-se com o reencontro.
Os pontos comuns nestas três parábolas definem o modo de actuar do Deus de Jesus Cristo: perder-se, procurar e alegrar/fazer festa. Ele procura a salvação, a libertação dos seus filhos que se perdem nos montes e nos vales escarpados da vida, nos recantos esconsos da nossa consciência, nas aventuras de adolescências sempre inacabadas. Ele está sempre pronto a recomeçar e a alegrar-se com a felicidade, o sentido, a realização dos seus filhos. Ele deseja que nenhum se perca, procura cada um no seu dia-a-dia e alegra-se e faz festa com quem quer recomeçar.
O contraste é evidente: de um lado a murmuração (fariseus, escribas, irmão mais velho) que se coloca de fora da alegria, que se agrilhoa à censura, à critica, à condenação. Deste lado estão os que se não conhecem, que se julgam justos, que em nome de um deus (que não conhecem e que não é o verdadeiro porque é um deus que exclui, logo não pode ser deus) separam, abandonam, expulsam e entristecem. Do outro lado, está a alegria do céu, a alegria que chama os outros, que acolhe, que partilha, que se abre ao outro e partilha a sua felicidade. Uma alegria que tem as portas abertas da liberdade que é convite a quem quer descobrir o coração de Deus. Nesta alegria entram os que se descobrem e aceitam necessitados, os que se percebem como membros de um povo frágil, os que se conhecem e reconhecem como irmãos de um Pai comum sempre prontos a que estendermos as mãos uns aos outros (ao contrário dos dois irmãos da parábola que nunca falam um com o outro).
Que quem está longe deste Pai saiba (por nós cristãos) que Ele o espera carinhosa e amorosamente, sempre, de portas abertas. Que quem está em casa (nas 99 no deserto, como o irmão mais velho) não se distraia nem se esfrie e tenha tudo preparado para o regresso do irmão: coração quente e aberto, mesa fraterna posta, sinfonia convivial preparada, alegria sincera porque o Pai está connosco, mas incompleta porque nos faltam muitos irmãos. Só assim seremos a Igreja de Cristo.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Partilha de Opiniões

Li com agrado algumas intervenções certeiras sobre a educação em Portugal reproduzidas na revista do Expresso do passado sábado. O meu agrado advém da me sentir bem acompanhado nas críticas que aqui tenho vindo a expor e na crença de que, a pouco e pouco, são muitos os que partilham estas opiniões, o que nos faz ter alguma esperança no futuro. Aqui fica, por temas, algumas das pertinentes afirmações.

Indisciplina: «Tolerância zero à indisciplina, com penalizações inflexíveis a incidir sobre as notas, as propinas, a própria frequência. Tolerância zero à interferência histérica e abusiva de pais na sobreprotecção dos "meninos"» (Rita Ferro)
Avaliação: «Não há melhor avaliação do que quando um estudante está pressionado como se estivesse na vida. Negar estas exigências da vida é de gente tola.» (Medina Carreira); «É necessário instituir seriedade na avaliação dos estudantes, o que cada vez me parece mais difícil enquanto o GAVE estiver na dependência do ministério da educação.» (Nuno Crato)
Professores: «É preciso maior seriedade na formação científica dos futuros professores - instituir um exame de entrada na profissão seria um primeiro passo fundamental.» (Nuno Crato)
Reuniões: «O hábito nacional das reuniões é o espelho do que somos. Detesto reuniões. Falam todos, repetem-se. Um massacre extraordinário de palavreado, tal como a discussão do nosso sistema de ensino.» (Medina Carreira)
Como se chegou a este estado de coisas?: «[nos] últimos anos da década de oitenta, altura em que o ensino começou a ser dominado por uma série de ideias pedagógicas ditas modernas mas na realidade retrógradas, que tinham feito o seu curso nos Estados Unidos a partir dos anos 1920» (Nuno Crato)
O que fazer?: voltar «a destacar o papel do ensino como transmissão organizada de conhecimentos e dar verdadeira autonomia às escolas e aos professores. O ministério deveria promover a avaliação de resultados e deixar de controlar processos. Faz exactamente ao contrário.» (Nuno Crato)
Se nada mudar...: «Vamos ter um país de velhos, com esta geração a pagar as dívidas que hoje se contraem. E sem educação». (Medina Carreira)
Proposta facilitadora e economizadora: «Tenho uma proposta modernista, que constitui um avanço civilizacional: delegações das universidades nas maternidades, para passar diplomas as recém-nascidos. Poupava-se imenso aos país.» (Medina Carreira)

Sem mais comentários. Bom fim-de-semana.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Regresso às Aulas

Depois de duas semanas de férias repartidas pelo Algarve (a fotografia é da praia de Santa Eulália vista do aldeamento onde estive) e pela Lousã, esta semana é de preparação do novo ano escolar. Este ano terei horário completo no colégio com as aulas de EMRC. Serei director de turma (uma novidade na minha actividade docente) e leccionarei ao terceiro ciclo e ao 10º e 12º anos. Além disso, terminarei a minha licenciatura em filosofia fazendo a única disciplina que me falta (Ética II), no final do segundo semestre. Entretanto, estou à espera dos resultados do concurso para o mestrado em ensino da filosofia, que espero começar este ano e que me vai exigir uma exigente articulação com as aulas no colégio.
Estou ansioso por começar e colocar-me ao serviço. E assim espero pelo Senhor. Para quem está a regressar ao trabalho ou à escola desejo um produtivo ano de trabalho.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Já Volto. Agora, Escutem

Um dia destes volto com mais tempo a este espaço, hoje deixo apenas estas palavras extraordinárias do Irmão Roger. Escutem, meditem e libertem-se. Boa semana.

Irmão Roger : o que não sabíamos from Taizé on Vimeo.

domingo, 5 de setembro de 2010

XXIII Domingo do Tempo Comum (Lc 14, 25-33)

O Evangelho de hoje mostra como Jesus não pretendeu somente deixar uma série de ensinamentos ou de regras de conduta ou de posturas morais. Para Jesus o essencial era segui-lo no caminho que ele próprio fez, era percorrer o caminho de radicalidade absoluta do amor ao Pai. Jesus não foi simplesmente um homem bom que devemos escutar, mas é o homem, é a vida humana absoluta que o que se diz cristão tem como cenário e meta dos seus dias. Por isso, somos simplesmente aprendizes de Cristo. Não imitações, não pirataria de uma marca famosa com estatuto, mas construtores diários de uma nova forma de ser homem, de uma nova família que ultrapassa todos os tipos de laços: de sangue, de aliança matrimonial, de amizade, de camaradagem profissional.
Assim, temos que amar Jesus acima de todos os outros amores. Ele é o que inspira todos os outros tipos de laços, de amores. E isto tem como consequência a cruz porque seguir Jesus é seguir as consequências da sua forma de viver a vida: incompreensão, desprezo, solidão, morte.
O que é admirável em Jesus é a sua honestidade: à multidão que o seguia e que hoje o segue ele "volta-se" e avisa a condição essencial para o seguir ("Se alguém vem ter comigo sem Me preferir ao pai, à mãe, à esposa, ,aos filhos, aos irmãos e até à própria vida não pode ser meu discípulo"); à multidão que o seguia e que hoje o segue avisa qual a consequência imediata desse seguimento ("Quem não toma a sua cruz para me seguir não pode ser me discípulo"). Mais, Jesus propõe ponderação para ser seu discípulo. Não se o pode seguir por um impulso do entusiasmo pueril e epidérmico nem por uma inércia conformada com uma educação recebida ou com uma cultura dominante. Quem quiser construir uma vida cristã e quem quiser combater o bom combate da fé é fundamental que pare para pensar, reflectir, aprofundar e conhecer Jesus para não cair no ridículo de ser um cristão inacabado convencido que já o é completamente e vencido pelos acontecimentos da vida que não foi capaz de encarar com as armas de Jesus: mansidão, fé, oração, amor sem limites.
Ser discípulo de Jesus ou é uma opção bem pensada e pesada, consciente da sua exigência e implicação, ou então é uma contrafacção de cristianismo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Obrigatório Ler

Não esperava voltar aqui, mas o José Manuel Fernandes, no seu texto de opinião, hoje, no Público, alertava para este magnífico texto de Ferreira Fernandes publicado ontem no Diário de Notícias. Vale a pena ler e reflectir. Nem precisa de comentários.

A Soldado Desconhecida
Josefa, 21 anos, a viver com a mãe. Estudante de Engenharia Biomédica, trabalhadora de supermercado em part-time e bombeira voluntária. Acumulava trabalhos e não cargos - e essa pode ser uma primeira explicação para a não conhecermos. Afinal, um jovem daqueles que frequentamos nas revistas de consultório, arranja forma de chamar os holofotes. Se é futebolista, pinta o cabelo de cores impossíveis; se é cantora, mostra o futebolista com quem namora; e se quer ser mesmo importante, é mandatário de juventude. Não entra é na cabeça de uma jovem dispersar-se em ninharias acumuladas: um curso no Porto, caixeirinha em Santa Maria da Feira e bombeira de Verão. Daí não a conhecermos, à Josefa. Chegava-lhe, talvez, que um colega mais experiente dissesse dela: "Ela era das poucas pessoas com que um gajo sabia que podia contar nas piores alturas." Enfim, 15 minutos de fama só se ocorresse um azar... Aconteceu: anteontem, Josefa morreu em Monte Mêda, Gondomar, cercada das chamas dos outros que foi apagar de graça. A morte de uma jovem é sempre uma coisa tão enorme para os seus que, evidentemente, nem trato aqui. Interessa-me, na Josefa, relevar o que ela nos disse: que há miúdos de 21 anos que são estudantes e trabalhadores e bombeiros, sem nós sabermos. Como é possível, nos dias comuns e não de tragédia, não ouvirmos falar das Josefas que são o sal da nossa terra?

Descoberta

Estas primeiras semanas de férias tenho-as passado com a Mafalda em casa. No intervalos dos seus curtos sonos vou colocando leituras em dia e vou descobrindo algumas novidades (pelo menos para mim) como o contratenor francês Damien Guillon que tem tido como mestre o grande Andreas Scholl. Com 29 anos estamos diante de uma voz sublime para muitos anos. Do pouco que ainda se encontra na internet, deixo aqui uma parte da Paixão Segundo S. Mateus de Bach. A ária que ele interpreta começa pelos 2,20 minutos. Recomendo vivamente. Um boa fim-de-semana ou umas boas férias.
Como a incorporação está indisponível, para ouvir terão que clicar aqui

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Uma Inspecção e Computadores

No dia 21 de Julho tivemos, no colégio, a reunião geral de professores que foi um momento paradoxal: de um lado, os resultados da inspecção feita pelo Estado que reafirmou a excelência do colégio e que disse que as propostas que fazia tinham o intuito de reforçar aquela excelência, ausente na maioria dos estabelecimentos de ensino que aquela equipa inspectora visitava (quem dera que as escolas funcionassem como o colégio, desabafavam); do outro lado, o resultado das reuniões de avaliação feita por todos os ciclos de ensino (do pré-escolar ao secundário) que propunham uma série significativa de melhorias e de novas formas de acção. O que isto mostra é o segredo do sucesso do Colégio Luso-Francês.
Esse segredo não está nas suas instalações (hoje muitas escolas secundárias, depois das obras de renovação do parque escolar têm excelentes e melhores instalações e eu ainda usufruí delas no último ano que dei aulas na Rodrigues de Freitas), não está no currículo que é igual ao do ensino público, nem está exclusivamente no estatuto económico das famílias dos seus alunos. O seu segredo está essencialmente na estabilidade, na qualidade e na heterogeneidade do seu quadro docente. Numa altura em muitos professores esperam ansiosamente que o computador do ministério lhes indique a escola onde vão dar aulas (os famosos concursos), o colégio sabe quem terá a dar aulas no próximo ano e os docentes sabem com o que vão contar.
A questão é que é o colégio que escolhe os seus professores e, na situação de concorrência em que se encontra (os nossos alunos não são garantidos, a sua inscrição depende da qualidade que os seus pais reconheçam ao ensino daquela casa), essa escolha só pode ser feita tendo em conta o mérito, a competência, o compromisso, a responsabilidade, o currículo e a qualidade dos professores. Assim, o essencial nem é uma nota de final de curso (todos sabemos como existe uma discrepância injusta e reveladora de facilitismo nas notas finais de um curso conforme a faculdade ou o instituto politécnico onde esse curso foi adquirido), nem são os anos de serviço (sem notar se esse serviço foi de qualidade e de competência). O essencial é falar com as pessoas, é recolher toda a informação necessária sobre a actividade docente dessa pessoa, é perceber os pré-requisitos de que essa pessoa é possuidora, é avaliar permanentemente a sua actividade e é ter a liberdade de a dispensar se ela se mostrar incompetente. Mais, é a própria pessoa ter consciência que o sucesso do colégio depende do seu trabalho, da melhoria das performances dos alunos, que o seu salário e o seu posto de trabalho dependem da exigência, do rigor e da qualidade que coloca nas suas aulas e na sua restante actividade docente. Por isso, no final do ano foram tantas as propostas de melhorias apresentadas pelos docentes porque estão empenhados e comprometidos em fazer do colégio um espaço de saber e de preparação para a vida com mais e melhor sucesso.
Não é possível uma educação com qualidade sem professores, mas também não é possível sem os melhores professores. E esses não se descobrem por concurso centralizado e computorizado, mas por contacto directo e pedindo contas da sua actividade como qualquer empresa de sucesso faz. Mas eu sei que ninguém quer isso com medo das chamadas cunhas. Preferem o "maravilhoso" estado actual. Boa sorte...

Há muito que gostaria de vos mostrar aqui um estudo americano, que descobri a partir de um artigo de Nuno Crato, (eu sei que há estudos para todos os gostos, mas este tem as melhores referências) sobre a utilidade dos computadores (esse mito tão socrático) na aprendizagem. A amostra é gigantesca: 150 mil jovens, seguidos ao longo de cinco (5) anos. Os dados permitiram observar os resultados dos alunos em matemática e na leitura em dois momentos: antes e depois da introdução do computador pessoal para estudo, em casa. Assim, estudou-se o impacto do computador no progresso dos estudos em cada estudante, independentemente do seu meio social.
Surpresa: após a introdução do computador no quarto de estudo, os jovens não melhoraram os seus conhecimentos. Os rapazes têm mesmo algum retrocesso escolar. Enfim, os investigadores notaram (há tanto que eu digo isto) que a tendência é usar o computador não como meio de estudo, mas como meio de comunicação e diversão que ajudam à constante dispersão.
Pior, o retrocesso é maior nos jovens de meios mais desfavorecidos porque o apoio familiar na orientação do uso da informática é menor e esses jovens ainda se dispersam mais. Enfim, o computador oferecido não é um meio de igualização social.
O que isto quer dizer é somente que o uso das novas tecnologias, por si só, não é solução de nada porque nada substitui o bom professor e o estudo organizado. Sim, o estudo. Sim, eu sei que estudar é duro e difícil, não é um divertimento, mas é a vida...
www.nber.org/papers/w16078.pdf

domingo, 8 de agosto de 2010

XIX Domingo do Tempo Comum

Farei o comentário de hoje sobre a minha versão breve que é a seguinte: Lc 12, 32- 40.
Quando saio de casa, seja para o trabalho, seja para ir a algum lado (casa de familiares, ao cinema ou às compras) quase sempre chego a uma conclusão: como estamos cheios de coisas. Quando era criança e ia à escola ou quando andava no seminário e na faculdade, saía de casa com a pasta e nada mais. Agora, levo telemóvel, chaves do carro, comando da garagem, computador portátil mais o cabo de alimentação, carteira cheia de cartões, de descontos, de papeis e papeis, óculos de sol, enfim uma lista infindavel de coisas. E não falo de quando saio para férias ou para uma actividade diferente, seja de trabalho ou de lazer.
Andamos atulhados de coisas. Muitas eram para nos facilitar, mas acabam por nos prender e pesar...
O Evangelho de hoje é oportuno: "Não temais pequeno rebanho porque aprouve a Deus dar-vos o reino. Vendei o que possuís (...) fazei bolsas que não envelheçam (...) porque onde estiver o vosso tesouro aí estará o vosso coração". Na verdade, confiamos demasiado nas coisas e por isso andamos carregados de preocupações, de ocupações, de medos, de tesouros que se corrompem e nos corrompem e, pior, nem percebemos a salvação que vem, todos os dias, ao nosso encontro em Jesus, pelos outros.
A questão é que esperamos muito das coisas e pouco de Deus. Na verdade, esquecemos o que é a esperança. Esperamos o imediato, o já agora, o que não satisfaz. Quantos de nós chegarão ao final destas férias tão desejadas, com o amargo sabor de nada ter feito, de não ter lido o que queria, de não ter dedicado o tempo à família que desejava, de não se sentir mais realizado e completo do que esperava? Quantos de nós não anseiam que chegue o fim-de-semana e quando se levantam na segunda-feira estão ainda mais cansados? Quantos de nós esperam que seja aquele ordenado, aquela promoção, aquela experiência nova que o realize, que concretize todos os sonhos e chega ao fim e o que sente é um irritante e melancólico vazio? A questão é que nada satisfaz a nossa esperança senão o próprio Deus porque estamos feitos para o infinito, para o eterno e o mundo é pequeno para os anseios do nosso coração. Nada na vida nos satisfaz. Mesmo o amor humano traz em si sempre um limite que o faz sentir sempre aquém.
Só o Senhor que vem, sem o notarmos, e espera que nos encontremos vigilantes para o percebermos e acolhermos na nossa vida; só Ele nos realiza. Quando o fazemos a vida perde fronteiras e limites, ultrapassa os nossos sonhos e anseios (sempre demasiado pequenos), ganha eternidade. Por isso, a nossa esperança deve estar em Deus porque só ele responde ao pulsar insatisfeito do nosso coração, só dele nos vem aquilo que pode satisfazer a nossa esperança: a Vida. Por isso, relativizemos o que temos, o nosso orgulho, o momento, a zanga de ontem ou de há anos, o poder, o sucesso do outro porque nada disso realiza, tudo envelhece, tudo é corroído, tudo nos é tirado ou será tirado. Afinal, onde temos o nosso coração? Da resposta, a esta questão nasce um projecto de vida, uma forma de estar e um processo de conversão.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quem Quer Aprender?

Na sexta-feira estive toda a tarde com o meu amigo José Rui Teixeira a trabalhar na dimensão da evangelização do plano estratégico para o triénio 2010/2013, para o Colégio Luso-Francês. Esse plano tem envolvido uma equipa entusiasmada e empenhada em manter e melhorar a excelência daquela casa de que falarei dentro de dias. Não falo já hoje porque a manchete do Expresso de sábado não me deixa. Quando pensávamos que todas as experiências com a educação em Portugal estavam feitas, eis que surge mais uma luminária disfarçada de ministra: há que acabar com as reprovações. O argumento é fantástico: a OCDE propõe aos países do sul da Europa que sigam o exemplo dos seus congéneres nórdicos que não têm reprovações e que têm grandes resultados nos testes internacionais.
O problema é que a OCDE não conhece e a ministra e os seus acólitos fingem não conhecer algo bem enraizado na cultura nacional: o desenrasca, o chico-espertismo, a falta de valor pelo saber e a vitória do pragmatismo. Deixo só dois exemplos. O colégio bate-se com uma grande dificuldade em manter os seus alunos (alguns deles dos melhores) depois do 9º ano. Porquê? A resposta é eloquente do país que temos: porque é muito exigente a todas as disciplinas. Porque exige empenho, estudo e trabalho a filosofia, a educação física, a inglês, etc. disciplinas que não têm exames nacionais e que, a que quem quer medicina (a deusa dos pais), não interessam. Exactamente. O problema do colégio é que obriga a saber, exige trabalho, implica aplicação. E os pais ou os alunos o que fazem? Fogem para colégios, externatos onde tudo é facilitado, onde se anulam disciplinas no início do ano e depois faz-se exames internos para se atingir notas estratosféricas, onde alunos no colégio com níveis de 12/13 atingem 19/20. Isto prova que o importante para o português não é saber, não é acumular competências para a vida, mas simplesmente conseguir algo, não importa como.
Segundo exemplo. É inacreditável a quantidade de pessoal a copiar nos exames da faculdade. Já quando tinha andado em Teologia, na década de noventa do século passado, o verificara. Este ano, lá voltei a encontrar os descarados e desonestos que copiam, copiam e depois se pavoneiam com as suas notas mentirosas. Ainda são alguns e não pensem que são só alunos mais novos. Também alguns dos mais velhos, com marido/esposa e filhos, que deviam ter outra postura, também o fazem. O que é que isto prova? Aquilo que tenho vindo a demonstrar: o importante, em Portugal, não é o saber mas o tirar um curso, uma nota, chegar a um estrato social.
Num mundo ideal, onde a cidadania fosse um valor, onde o mérito fosse reconhecido, onde a competência fosse elogiada, onde o rigor e a exigência fossem norma, então sim as reprovações não tinham sentido. Mas, num país onde são os próprios pais que pressionam os filhos a optar pelo mais fácil, pelo caminho mais plano não creio que o caminho seja mais facilitismo. Claro que se a intenção for a estatísticas então força, alarguem as Novas Oportunidades a todos os ciclos de ensino, mas não enganem os incautos, não venham com os argumentos dos estudos e das organizações internacionais porque, na verdade, o que dói ao Estado é que os chumbos custam ao país 600 milhões de euros por ano. Mas isso não se resolve com passagens administrativas (gostava de saber quantos políticos e membros daquele ministério beneficiaram delas nos famosos anos quentes depois do 25 de Abril de 1974) que é do que realmente se está a falar. Isso resolve-se com competência no governar, paixão no ensinar e sacrifício no aprender. O resto é conversa da treta.

domingo, 1 de agosto de 2010

XVIII Domingo do Tempo Comum (Lc 12, 13-21)

Como sempre Jesus não entra pelo campo da legalidade. Diante do pedido de justiça de alguém injustiçado pela repartição de uma herança (no tempo de Jesus o filho mais velho recebia muito mais que os irmãos), Jesus, como sempre, vai mais longe, recusa-se a entrar nos compromissos humanos, nas negociatas, na justiça dos homens e apela ao essencial: "guardai-vos de toda a ganância", guardai-vos de todo o acumular, de todo o possuir, de colocar a vossa confiança no ter, na riqueza.
Na verdade o coração humano é um poço de inseguranças, de medos, de incertezas e, por isso, facilmente se convence que se acumular muitos bens, se se encher de coisas, se alcandorar-se a posturas ou posições de poder tudo ficará resolvido. O coração humano pensa que assim é capaz de dominar a vida, de se perpetuar no tempo, de pairar sobre os outros. Na verdade, toda a ganância traz consigo formas de controlo sobre os outros, formas de opressão. Isso sim é que está na base de todas as injustiças e é à raiz dos problemas que Cristo fala.
Atente-se na parábola proposta por Jesus. Aquele homem rico é notoriamente um homem só. Apenas fala consigo, apenas cogita consigo, apenas pensa em fazer tudo sozinho (descansa, come, bebe, regala-te). É alguém sem ninguém, que vive para o que tem em abundância, que vive para acumular, que nunca põe como hipótese a partilha da vida, dos bens, do que lhe sobra, nem comer, nem beber ele entende como formas de partilha, nem que fosse com alguns amigos. Mas tudo terminará porque realmente tudo acaba, tudo fica cá, tudo é lixo diante da morte ou, como dizia Coelet, na primeira leitura, Tudo é Vaidade.
Se colocamos a nossa vida, os nossos esforços, os nossos sacrifícios, as nossas forças naquilo que perece somos mentecaptos (melhor tradução do que a de insensato que está na leitura litúrgica), somos pessoas sem mente, sem cabeça. As inseguranças do nosso coração não se resolvem pelo ter, nem pelo possuir nem pelo o último modelo automóvel, de roupa, de telemóvel ou pela viagem a um destino paradisíaco. Tudo isso só trás desilusão, vazio, infelicidade, morte. Quem nunca o sentiu, não se sente.
Canso-me de ver tanto vazio desses mentecaptos que não sabem o que fazer ao que têm e continuam a planear a próxima compra, o próximo investimento, o próximo prémio de produtividade ou, quem sabe, até, o próximo filho por um barriga de aluguer. E esquecem-se que tudo o que têm é emprestado para partilhar e, é lamentável, que só o venham a perceber quando descobrirem que a própria vida lhes foi emprestada para dela darem fruto, que não se armazena nem se acumula mas que se partilha, que se dá, que se coloca em comum porque tudo é dom para tudo se dar.
Ao ler este Evangelho também recordei (e peço perdão por isso) aqueles banqueiros católicos que levaram bancos à falência ou respondem em processo judiciais por tanto quererem acumular. Bem espero que tenho ido à Eucaristia e escutado seriamente o Evangelho deste domingo e que arrepiem caminho porque não se pode ser cristão e pensar que temos algo de nosso: nem filhos, nem mulher, nem homem, nem dinheiro, nem funcionários, nem propriedades, etc. Tudo é do mundo e, por isso, tudo cá deixaremos... Tanta vaidade...

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A Propósito de Uma Nuvem de Fumo

Quarta-feira, Esmoriz acordou envolvida por um denso e irrespirável manto de fumo. É uma boa imagem para a situação de demagogia descarada e insuportável que vai grassando na vida pública portuguesa. Agitam-se bandeiras de defesa do estado-social, quando todos sabemos que ele tem os dias contados para a minha geração e, principalmente, para a geração da minha filha: seria preciso que nas próximas duas décadas o crescimento económico do produto fosse de 7% (sete) e que cada família portuguesa tivesse 3 (três) filhos. A realidade é que esse chavão chamado estado-social é usado como arma de arremesso político, mas não como ponto de partida para reflectir e agir criando as condições para que no futuro haja reformas para quem verdadeiramente precisa, saúde gratuita para quem verdadeiramente precisa e educação gratuita para quem verdadeiramente precisa.
Depois de há umas semanas atrás, ainda durante a minha época de exames, ter visto e ouvido o primeiro-ministro, num daqueles intermináveis debates de egos na Assembleia da República, dizer que cortar nas deduções ao IRS das despesas da saúde e da educação era uma forma de fazer com que os ricos, que frequentam consultas privadas para descontarem mais no IRS, pagarem a crise (dixit), decidi nunca mais levar a sério esta gente (governo e oposição). O que é incrível é que disse isto sem se rir, sem se descompor. Na verdade, um casal que ganha 1500 euros por mês é rico. E vai ao pediatra privado porque gosta de gastar dinheiro. E compra livros escolares para os filhos porque é accionista da Porto Editora. É lamentável e insultuoso.
A questão é que neste país o que é privado é de ricos e o que é público é para os pobres. Mas não é assim. Primeiro, entre os ricos e os pobres existe uma maioria silenciosa, trabalhadora, longe dos subsídios sociais ou dos subsídios de ajudas a empresas e bancos; longe das benesses de amizade política ou das assistências sociais. Essa maioria silenciosa chama-se classe média e tenta ter uma saúde séria onde não tenha que esperar meses por uma consulta da especialidade, quando a pode ter no próprio mês; que tem que pagar dentista, pediatra, etc., que justamente se recusa a que escolham por ela um médico de família que é pau para toda a colher e a atende a correr e a olhar para o relógio. Essa classe média olha com horror para a educação das nossas escolas e sonha com a possibilidade de colocar os seus filhos num local seguro, onde realmente se ensine com rigor e seriedade. E muitos, com grande sacrifício pessoal fazem-no, mas são olhados como ricos e privilegiados.
Em segundo lugar, a verdadeira justiça social é tratar diferente quem é diferente. Isto é, a saúde e a educação não podem ser gratuitas para toda a gente. É injusto e não tem futuro. Não é justo que uma família que ganhe 1500 euros por mês tenha uma consulta do centro de saúde ao preço de uma família que ganhe o ordenado mínimo. Agora pensemos que quem ganha 10.000 euros mês também tem direito à mesma consulta gratuitamente. Ou à mesma operação. Ou à mesma escola. Brilhante. Não é sustentável que cada criança, seja de classe baixa, média ou alta, num escola pública fique por 5000 euros por mês. Não é compreensível que o mesmo estado que me obriga a ir ao centro de saúde e ao hospital para uma consulta da especialidade e que grita contra a saúde privada, permita (via ADSE) que um funcionário público possa ir a uma médico privado e seja ajudado a pagar essa consulta ou esse exame ou, até, esse internamente. Justíssimo.
Não é uma questão de pobres e ricos, de liberalismo ou socialismo, é uma questão de justiça e desenvolvimento. A alma de uma sociedade é a sua classe média, é ela que faz subir o PIB, é dela que depende a taxa de natalidade, é nela que estão a base intelectual e cultural de um povo. Ora, é precisamente essa classe que vê o garrote a ser cada vez mais apertado e espantada vê que nada muda, nada se reforma, que não a libertam nem dos encargos fiscais crescentes, nem de um estado que acha que sabe o que é melhor para a sua saúde e para a educação dos seus filhos. E ainda por cima a apelidam de ricos.
Falta verdade e coragem na vida pública portuguesa. Vive-se ao som do que se acha que as pessoas querem ouvir. Criam-se discursos simples, maniqueístas entre esquerda e direita, estado-social e neo-liberalismo, enfim deita-se areia para os olhos enquanto nos vamos atrasando irremediavelmente. Um dia acho que direi à minha filha o que digo a muitos excelentes estudantes que vou encontrando: emigrem para onde vos reconheçam valor e vos respeitem. Porque em Portugal não se respeita o mérito, o sucesso, o esforço próprio, a liberdade. Pior, ainda nos chamam nomes...

terça-feira, 27 de julho de 2010

Saboreando

Quando vemos um bom filme ele permanece connosco dias, promove diferentes reflexões, alimenta conversas e não descansamos em o rever vezes sem conta. Quando provamos um venho excepcional, além do rasto eterno que ele nos deixa no palato, nunca mais o deixamos perdido no passado nem o enquadramento social em que ele foi degustado. Quando vivemos um momento marcante, um Acontecimento, não só nunca mais o esquecemos, como a nossa vida nunca mais será a mesma. Quanto mais não seja, recorrentemente nos virá à mente e ao coração essa recordação.
O passado domingo foi um dia assim. Ainda ontem recordava os muitos filhos e as muitas famílias com quem celebrei o baptismo. Perdi-lhes a quase todas o rasto. Mas, ao ver a Mafalda a tocar o ritual do Sr. padre, enquanto ele rezava as diferentes orações dos ritos explicativos, visualizei num relança as muitas mãozinhas que se aproximavam do meu ritual e o tocavam deliciadas. Ao subir ao altar e ao rezar a oração do Pai-Nosso diante dos nossas familiares e amigos, recordei os inúmeros casais que ali diante dos seus orgulhosa e agradecidamente seguravam os seus filhos. Ao escutar as palavras sábias do Sr. padre de que era fácil gostar, amar um bebé, mas que quem baptizávamos era o mesmo cristão daqui a doze anos, o mesmo a pedir o nossa amor e a nossa fé, pedi ao Senhor por todos aqueles que passaram pelas minhas mãos, sobre os quais derramei água de Vida, para os quais invoquei a Sua bênção, a companhia e a luz de Jesus Cristo. Se alguma dessas famílias ler este post, para eles um forte abraço, que o Senhor esteja sempre convosco e como vêm aquele dia também foi um Acontecimento para mim, como o baptizado da minha filha.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Celebrei o Deus Amor

Ontem foi o baptizado da Mafalda. Foi emocionante estar deste lado com uma filha à porta da Igreja e escutar: "Mafalda é com muita alegria que a comunidade cristã te recebe. Em seu nome, eu te assiná-lo com o o sinal da cruz." Sentir que partilho com ela o maior tesouro que recebi, que cultivo e que tento preservar que é a minha fé vivida na comunhão da Igreja.
Foi uma alegria enorme celebrar este Deus que a ama muito antes que ela lhe possa corresponder.
É um impressivo e intenso sentimento olhar para a Mafalda e vê-la revestida de Cristo.
Celebramos o Deus Amor, celebramos a Igreja nossa mãe, celebramos tudo isso com os familiares de ontem e de hoje, com os amigos do passado e do presente que queremos trazer sempre no futuro. Ontem, tive presente os muitos com quem me cruzei ao longo da minha vida e todos eles farão parte da história que tenho para contar à minha filha.
Termino com algumas das palavras que ontem proferi no discurso da praxe, na nossa família:


(...)

À Mafalda não lhe peço que me realize, que me agradeça, que me siga, que me imite, que me ame. Apenas lhe peço que escute a bela história que lhe tenho para contar e de que todos vós fazeis parte. Na história que as nossas relações teceram ela encontrará todos os ingredientes para acreditar no homem, mesmo conhecendo todo o mal de que ele é capaz; para acreditar na vida, mesmo conhecendo todas as sua exigências; para acreditar no amor, mesmo conhecendo toda a morte que ele implica; para acreditar em Deus, mesmo experimentando as noites escuras da sua ausência que é presença.

(...)

Finalmente, naquela história, a Mafalda descortinará a mão, o sopro, a Palavra, o Amor, a Vida d’Aquele sem o qual nada poderia fazer. Sim gostaria muito, minha querida filha, que um dia descobrisses o tesouro que um dia, graças a todos estes que aqui estão e a muitos outros, o teu pai descobriu: Jesus. Amo-o como tento amar todos os dias a tua mãe, a minha mãe, a ti. Amo-o como acho que nunca amarei ninguém. Porque ele me ama como nunca ninguém me amará. Porque nele me entendo, me percebo, me encontro. Porque nele entendo a vida. Porque nele creio no Homem. Porque nele persevero na tribulação. Porque nele encontro alegria na esperança. Porque em ti vejo mais uma vez o seu amor por mim.

Vem Mafalda tenho uma bela história para te contar. Vem, vamos juntos – eu, a mãe e tu – continuar a escreve-la. Contamos convosco para a continuarmos a escrever.

domingo, 18 de julho de 2010

XVI Domingo do Tempo Comum

Que texto (Lc 10, 38-42) tão oportuno o de este domingo para quem, como eu, andou tão atarefado e ocupado. Que texto tão oportuno em tempo de crise social e económica tão profunda que já todos percebemos que temos que trabalhar muito mais e receber bem menos para nos aguentarmos à tona.
No entanto, Jesus recorda-nos que a questão não está no tempo que nos falta, no excesso de cargas que nos carrega a vida, nas preocupações que nos apoquentam retirando-nos serenidade, confiança e amizade. A questão que está na raiz de tudo isso é outra.
Coloquemos os olhos sobre a atarefada Marta: ela é a dona da casa ("uma mulher chamada Marta recebeu-o em sua casa"); andava distraída, absorta (melhor que o "atarefava-se" da tradução litúrgica) com o muito serviço; depois repreende Jesus ("não te importas") e dá-lhe ordens ("diz-lhe que venha ajudar-me"), sempre com um olhar enviesado sobre a irmã e o mestre que acolhera em sua casa.
Marta é o sinal de muitos de nós descentrados do essencial, desconcentrados de que estamos com..., distraídos com as atitudes dos outros, às voltas, como baratas tontas, sustentando um sistema iníquo que diz que fomos feitos para trabalhar e não para viver, esquecendo que não somos donos de nada nem de ninguém, mas hospedes da vida, da nossa vida e da vida dos outros, pessoas que devem permanentemente estar agradecidas a Deus e aos irmãos por aceitarem a nossa individualidade, por amarem as nossas fraquezas, por aceitarem partilhar os seus dias, os seus gestos, as suas palavras, a sua companhia, o seu amor connosco.
Marta não escolheu ("Maria escolheu a melhor parte"). Sim, não parou para olhar em volta, para perceber o quanto recebe (muito mais do que o que dá), não travou a tempo os seus gestos e as suas palavras para acolher e por isso virou-se contra aqueles que mais a amavam. Como o fazemos tantas vezes! Não se revoltou com os sistemas que lhe impõem acção e não reflexão, que lhe impõem ânsia de tudo ter e experimentar em vez de serenidade de muito acolher, que lhe sugam a generosidade e a capacidade de sacrifício ingredientes essenciais para o amor.
Parafraseando uma anedota judia (aquele rabino anda tão ocupado com as coisas de Deus que até se esquece que Ele existe), existem tantos pais procupados com o futuro dos filhos que até se esquecem que eles existem; existem tantos casais preocupados com as experiências novas que até se esquecem de experimentar a novidade absoluta e diária do outro; existem tantos empresários preocupados com os lucros que até se esquecem que o lucro acontece com os outros que produzem, consomem e se alimentam; existem tantos trabalhadores preocupados com o seu futuro que até se esquecem que o futuro é uma construção com os outros; existem tantos jovens em busca de liberdade que até se esquecem que ela está ao alcance da sua capacidade de conquista responsável e dialogada; existe tanta Igreja preocupada com a grandeza de Deus que se esquece que a glória de Deus é o homem.
Jesus ensina-nos a escolher a cada hora, em cada dia e diante de cada homem a melhor parte que quase nunca é a minha.

sábado, 17 de julho de 2010

De Regresso

Finalmente. Os exames terminaram ontem às 18,30h. Desde 9 de Junho realizei seis exames (o máximo permitido pela faculdade num semestre). Nesta semana fiz três de seguida com um dia de intervalo entre eles. Terminei exausto, com o corpo a doer e a cabeça a latejar. Mas terminei. As notas que vão saindo a conta-gotas são estimulantes e reconfortam todo este estudo. A licenciatura está praticamente terminada, falta Ética II que não pude realizar este ano porque não nos podemos matricular, num semestre, a mais do que seis disciplinas. Assim, no próximo ano pagarei a propina completa por uma disciplina. Enfim. Mas, já me posso candidatar ao mestrado em Ensino de Filosofia e, assim, na próxima sexta lá estarei a fazer... mais uma prova escrita de português. Espero que a minha média prejudicada pelas equivalências da licenciatura em Teologia não me impeça de começar o mestrado já este ano. Se fosse com a média que tenho das disciplinas que fiz na faculdade de letras nestes dois anos (18,33), estaria bem descansado.
Mas o que interessa é que volto a ter tempo para os meus, para o meu blogue e para ouvir música e hoje proponho algo para arrasar. Sim, é muito velhinho mas apetecia-me algo mais duro para aliviar todo este stress.
Como vale a pena o cansaço quando fazemos as coisas seriamente e com amor. Bom fim-de-semana.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Por Entre Medievais

Continuo a estudar (com muita pouca vontade) para filosofia medieval porque tenho o seu exame na segunda-feira. Quando não tenho que ir ao colégio passo o dia sozinho em casa à volta de Agostinho, Boécio, Anselmo e Tomás de Aquino e do livre arbítrio humano em conjugação com a presciência de Deus. Antes gostava muito deste silêncio, hoje sinto falta da minha Mafalda. Não posso perder o pé aos meus dias porque eles passam a correr, tal como a vida. Para ela deixo aqui este lindíssimo spot publicitário porque existir é a melhor coisa da vida. Não há crises mas oportunidades. Não posso perder esta de te ter.

Un Encuentro sobre la Felicidad, Coca-Cola from perpleja on Vimeo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Começar Bem a Semana

Têm sido dias muito intensos: reuniões de avaliação, vigilância de exames, exames na faculdade (ainda me faltam quatro), as lides domésticas e paternas e mais as habituais surpresas. Por isso, não tenho tido disponibilidade mental para aqui vir. E venho hoje porque encontrei este vídeo carregado de esperança e confiança no homem. Quando ele quer todos têm lugar e com todos aprendemos imenso. Uma boa semana. Vou tentar passar mais algumas vezes por aqui.

Imagine Glee from Daniel Reigada on Vimeo.

domingo, 20 de junho de 2010

XI Domingo do Tempo Comum

Vivemos uma época de opinião. Quase todos opinamos sobre quase tudo. Atente-se nos fóruns radiofónicos e televisivos, leia-se (para quem tiver paciência) os imensos comentários a notícias na internet, os blogues sobre tudo e mais alguma coisa, sondagens, inquéritos, tertúlias, etc. Tudo isto mostra o império da opinião, que nem sempre é o da razão.
Mas falo deste assunto porque no evangelho de hoje (Lc 9, 18-24) Jesus lança uma dupla questão que mantém hoje uma actualidade pertinente e reflexiva: "Quem dizem as multidões que eu sou? (...) E vós, quem dizeis que eu sou?". À primeira questão ainda hoje, tal como então, são muitas as opiniões sobre Jesus das mais desvairadas às mais ortodoxas, passando pelas de maior ou menor indiferença. Mas a questão decisiva é a segundo que ele lança aos seus discípulos de hoje. E aqui peço desde já calma, não respondam tão depressa, não citem qualquer fórmula que não sabem o que quer dizer nem o que implica, não tragam as respostas infantis para alegrar catequistas ou o senhores padres, não se apressem, como fez Pedro, em debitar lugares comuns ou expectativas messiânico-religiosas.
Porquê? Porque Jesus, logo a seguir à impetuosa resposta de Pedro, mais que uma opinião sobre si pretende uma vida consigo. Jesus rejeita respostas aprendidas e memorizadas (lembram-se das fórmulas na catequese?) porque dizer quem ele é, dizer o que ele significa para mim, dizer o espaço que ele ocupa na minha vida só tem uma forma de se fazer: vivendo como quem dá, como doação, como entrega, como aparente perda.
Quem quiser andar com Jesus, caminhar com ele só tem um caminho: renunciar a si próprio, tomar a cruz todos os dias e segui-lo. Isto é, amar. Sim amar porque amar é renunciar a si próprio, amar é cruz, é sacrifício, é esquecimento de si, é doação, é oblação.
A resposta do cristão à pergunta de Jesus - Quem dizes que eu sou? - não é uma questão de opinião, mas de vida vivida e implicada na resposta diária a que cada um de nós é chamado. E isto é para todos (não só para alguns iluminados ou escolhidos) e para todos os dias (não só para alguns dias de festa ou algumas horas de rito religioso).

domingo, 6 de junho de 2010

X Domingo do Tempo Comum

No evangelho de hoje (Lc 7, 11-17) vemos um encontro de dois cortejos, duas posturas diante da vida, duas formas de vivência da fé: um a sair da cidade, a esconder-se, a sair para a solidão carregando a morte e o seu peso, a sua injustiça, a sua dor, a sua tragédia; o outro está a entrar na cidade, vai ao encontro, está a entrar para o meio da existência com a Vida e a vida feita confiança, esperança, alegria. Naquele vai um filho morto, uma viúva na mais terrível das solidões e muita gente. Neste vai Jesus, os seus discípulos e uma multidão.
No encontro destes dois cortejos - um de morte e outro de vida - coloquemos os olhos na acção de Jesus e encontraremos os discípulos e a Igreja que Jesus quer. Primeiro, Jesus ao ver aquela mãe compadeceu-se, comoveu-se, as suas entranhas se moveram maternalmente, divinamente e enxugou-lhe as lágrimas com a esperança e o conforto das suas palavras ("Não chores"). Depois, fez parar aquele cortejo de ostracização, de auto-negação, de auto-isolamento, de saída da cidade, do convívio, da sociedade (os que transportavam o caixão pararam ao toque de Jesus). Finalmente, porque é a Vida, sem orações, sem gestos grandiosos, mas como Senhor ordena não a morte (porque Ele não é Senhor da morte), mas o jovem a levantar-se, isto é Jesus é o Senhor da Vida, fala com o Homem, não com forças ocultas, tem para cada homem uma palavra de Vida, de conforto, de esperança que reabilita, que faz parar a marginalização, uma palavra que edifica, integra e eleva.
Eis a Igreja e o cristão que Jesus nos desafia a ser: aquele que não sai da cidade, não transporta a morte nem mensagens de morte, não se isola, mas faz parar todo o tipo de cortejo de morte (medo, pobreza, desemprego, marginalidade, solidão, desespero, desânimo, etc) e com palavras e gestos de conforto, de forma resoluta e confiante afirma e dignifica a vida. Que afirma que Deus salva e não condena; que Deus só pode dar a vida e nunca a morte; que as palavras de Deus ressuscitam e nunca fazem perecer.

O que acabei de dizer pode parecer uma evidência, um lugar comum na vida de um cristão, o centro de qualquer discurso eclesial. Mas por vezes ainda somos infelizmente surpreendidos com discursos eclesiásticos sustentados na morte, no medo, no julgamento, no castigo. Na quinta-feira, dia de Corpo de Deus, fui à missa e "apanhei" uma primeira-comunhão. Não vou falar da celebração em si (pobre, rotineira, enfadonha...), mas das palavras da longa homilia que nem dialogada com as crianças foi. Pois o que as palavras sublinharam foi o perigo de comer indignamente o corpo de Jesus, de comungar como Judas Iscariotes o fez na última ceia, de ser traidor de Jesus. Reforçou-se tudo isto com a a extraordinária exegese de que ser traidor de Jesus nos levará a acabar como Judas "esganado" numa figueira. E, terminou-se a homilia com a "pérola" de uma Santa que, sendo mãe, disse aos seus filhos: "Prefiro ver-vos mortos que a viver em pecado mortal". Estava fechado o edifício tenebroso de um sermão (sim, teve tudo de sermão ao pior estilo medieval) inqualificável. Enfim, em plena festa para dezenas de crianças teve-se um discurso de morte, de temor, de medo, de terrorismo religioso. Onde esteve o Jesus que veio para salvar? Onde esteve um Deus de Vida? Quando pararemos com estes cortejos de morte? É também por isso, que o Evangelho de hoje é fundamental. Só espero e pedi a Deus naquela hora que nenhuma daquelas crianças tivesse escutado tanta asneira, tanto paganismo, tanta negação de Jesus.
Senhor entra na nossa cidade e pára tanto cortejo de morte fora e dentro da tua Igreja.

domingo, 30 de maio de 2010

Santíssima Trindade

A liturgia de hoje ao propor-nos as solenidade da Santíssima Trindade não está a propor-nos (se o fizesse não seria uma celebração cristã) que nos afastemos da realidade da nossa vida para contemplarmos um mistério inefável de cariz místico e extravagante. Tal como Jesus diz no Evangelho de hoje, o "Espírito da verdade (...) Me glorificará", isto é abrirá o nosso coração à compreensão do mistério e do significado da vida, da paixão, da morte e da ressurreição de Jesus e à possibilidade da concretude do amor. Celebrar a Trindade é perceber que só me constituo como homem e como cristão na relação e na relação com o mundo e com o outro.
O homem nasce como filho, realiza-se numa família de sangue, de amizades e de cariz cultural e geográfico, é fruto de uma interminável teia de relações em que dá e recebe, tem vontade de transcender-se e entregar-se a alguém que o completa e realiza, nessa entrega sente o apelo a reforçar os laços de relação e a gerar uma nova vida, enfim nasce para o amor, para amar e ser amado, para partilhar a vida. E aí percebe Deus em quem sempre se moveu, existiu e é.
Quando o homem nasce e se fecha sobre si mesmo, se entende como auto-suficiente, como acima dos outros, dos sentimentos, dos afectos e como senhor da sua vida acaba convencido disso tudo, mas muito menos humano.
A Santíssima Trindade, aquela relação de amor tão profunda como misteriosa (não o são todas as relações de amor?), desafia todo o crente a viver em relação com o outro e com o mundo, mas numa relação frutuosa e geradora de vida como só pode ser uma relação de amor. Uma relação assim ultrapassa o visível, aposta no que permanece, rejeita o efémero, olha para além do imediato, vence a morte, ressuscita todos os dias. Não vale a pena neste dia falar de Deus Trino, tentar encaixa-lo num conceito, reduzi-lo a uma fórmula. O Deus de Jesus estilhaça todos os dias todas essas construções filosóficas, teológicas e culturais. O Deus de Jesus encontra a sua glória na relação de amor do cristão como o outro. Tudo o resto, sem isto, não passa de palavras...

terça-feira, 25 de maio de 2010

Um Relatório e Uma Reflexão

Têm sido semanas intensas, mas carregadas de momentos profundos, de convívios significativos, de experiências novas e originais. Na sexta, voltamos a encher a capela do colégio com alunos, pais e professores em mais uma oração Taizé; temos vindo a realizar celebrações marianas com as diferentes turmas desde o pré-escolar até ao 12º ano; na semana passada lançamos uma campanha de apadrinhamento de crianças da vila de Rabo de Peixe para que possam participar numa colónia de férias organizada pelos jesuítas (a participação de cada criança fica por 50 euros); no sábado, dia 15, fizemos um retiro para professores, na Casa da Torre, em Soutelo, em que tive a honra de apresentar uma perspectiva bíblica e espiritual da missão do professor católico e tive o privilégio de participar numa reflexão conjunta sobre o específico da escola católica e o que isso nos exige de mudança e regresso às raízes; participei, no domingo, dia 16, na celebração da primeira comunhão de uma família amiga que teve a simpatia de me convidar; vou recebendo amigos e familiares lá em casa que, quebrando rotinas, estreitam laços sempre indispensáveis; algumas aulas da faculdade vão-se acumulando no caderno à espera de serem transcritas a computador para melhor estudar para os exames (são seis e o primeiro é já no dia 9 de Junho); e vou acompanhando o florescer de uma vida, aprendendo com ela a missão do amor e a exigência da sua realidade.

No meio de tudo isto tenho tido dificuldade em dedicar um pouco mais de tempo a este espaço. Há muito que queria ter escrito algo sobre a crise económica que se tem agudizado e tem justificado mais e mais sacrifícios.
Peço desculpa, mas vou ter que me citar. Em 26 de Setembro escrevia neste espaço:
Portugal vive uma situação dramática que a maioria das famílias (as que têm um emprego com um ordenado médio) não tem noção porque as juros estão muito baixos, não existe inflação, houve aumentos significativos na função pública e até o petróleo tem estado controlado. Portugal tem uma dívida externa gravíssima, que fará com que seja cada vez mais difícil e caro conseguir dinheiro emprestado para o estado e para os bancos; Portugal gasta muito mais do que aquilo que produz e isso, a médio prazo, vai-se pagar; Portugal tem um endémico problema na formação da sua mão de obra que não se resolve com oferta de novas oportunidades; Portugal tem uma segurança social que estará cada vez mais sobre pressão não só com o aumento do desemprego como também com o envelhecimento da população; Portugal não tem uma visão estratégica para o seu futuro produtor seja na agricultura e nas pescas seja no seus diferentes sectores industriais; Portugal tem um estado que absorve grande parte da riqueza que produzimos anualmente porque tem muitos funcionários e mal distribuídos, porque faz muita coisa que os privados poderiam fazer, porque pensa que tem que ajudar tudo e todos (empresas, associações, artistas, etc, etc), porque anseia tudo controlar e desconfia de tudo o que é privado. Portugal vive uma situação decisiva da sua história e que se nada se fizer levará ao seu definhamento progressivo, que, se formos sensatos, já vamos vivendo há pelo menos catorze anos (digam-me quando não se disse que estávamos em crise?).
Na altura, em conversas familiares disseram-me que estava a exagerar. Que nunca estariam em causa direitos adquiridos, patamares remuneratórios, que haveria sempre dinheiro para os ordenados do estado e das autarquias, que eram visões catastrofistas, etc, etc.
Não foi preciso um ano para tudo ser ainda mais grave. Não vou fazer considerações políticas, nem procurar culpados porque tudo isso fica-se pela rama do problema.
A crise portuguesa é, antes de mais, uma crise ética. O dinheiro perdeu valor; o viver com o que se tem é antiquado; ser moderado nos gastos e implacável no supérfluo é salazarento; pagar o que se deve a tempo e horas é para os "anjinhos"; honrar a palavra dada é desmentido todos os dias e pelos mais responsáveis do país; valorizar o trabalho e a produção é do século XIX; o não assumir responsabilidades pelo que se faz, pela forma como se governa, pela vida que se leva; vive-se como se não houvesse amanhã, como se não houvesse pensionistas, doentes, crianças em idade escolar, trabalhadores daqui a 50 anos; tudo comprar porque tudo se vende e tudo e todos têm um preço é o único critério moral de muitos portugueses.
Mas mesmo assim, muitos teimam em não ver para lá da sua casa, da sua conta bancária, do seu futuro imediato (as próximas férias de Verão), dos objectivos partidários, do próximos aperto europeu. Nada mudará se não mudarmos de atitude. Não se estancará os gastos se não mudarmos de paradigma económico e estatal. Nada seremos se não formos verdadeiros com o que somos e temos, em como trabalhamos e produzimos, em como governamos e somos governados. Não haverá resolução de nenhuma crise, enquanto perdurar o momento, o imediato, as próximas eleições, a exterioridade, enfim a mentira. E, uma crise ética é muito mais difícil e lenta de resolver do que qualquer crise económica.

domingo, 23 de maio de 2010

Domingo de Pentecostes

E eis que se fecha o ciclo pascal. Sob o paradoxo portas fechadas/portas abertas celebramos o Pentecostes cristão, isto é, a festa judaica que celebrava a entrega da lei de Deus, por Moisés, no monte Sinai transforma-se na celebração do Espírito que vem em auxílio da nossa fraqueza e torna possível o mandamento do amor de Jesus.
No Evangelho de hoje, Jesus ressuscitado oferece o Espírito com um sopro. No início da Bíblia, no livro do Génesis, o homem torna-se um ser vivente porque Deus soprou nas suas narinas um hálito de vida. Na tarde daquele primeiro dia da semana, Jesus sopra sobre os seus discípulos o ar de que se alimenta e em que age todo o cristão: o Espírito de Cristo ressuscitado. E é por este Espírito, esta graça de Deus ao homem, que somos capazes do amor, do perdão, da oração, da solidariedade, da fé...
O cristão está de portas abertas ao mundo e sai ao encontro de todos os homens porque é impelido pelo Espírito, por esse vento de que se escuta a voz (Cf. Jo3, 8), e, tal como a leitura paradigmática dos Actos dos Apóstolos (Act 2, 1-11), é compreendido por todos os homens. Como? Porquê? Porque fala a linguagem do amor. Porque faz-se reconhecer como cristão (ou assim se deve fazer reconhecer) da mesma forma que Jesus se dá a conhecer no meio dos seus discípulos: "mostrou-lhes as mãos e o lado". Isto é, de mãos abertas e de lado rasgado como claros sinais de amor. Assim, todos nos compreenderão porque corajosamente afirmamos e agimos à imagem do amor do Mestre. Melhor, afirmamos e agimos imbuídos e movidos pelo Espírito de Jesus Ressuscitado: de mãos abertas oferecendo o perdão, de lado aberto que expõe a dimensão do coração de Deus, de lado aberto a acolher todo aquele que aceita e dá oportunidade a Deus amor. A retenção do perdão acontece a quem não se deixa amar, a quem não necessita de Deus porque não se sente humilde, frágil e pecador. A esse o cristão, a Igreja de portas abertas da manhã de Páscoa e de Pentecostes não promoverá juízos condenatórios, não perseguirá, não ostracizará, não lhe negará o sal da Palavra, nem a Luz do Caminho, nem o sentido da Vida, apenas o amará como o Pai da parábola do Filho Pródigo, paradigma do Deus cristão.
Vem Espírito Santo, que o teu sopro escancare as portas da Igreja e de cada um nós para que, de mãos abertas (para dar e receber) e de coração limpo (sem fingimento) , o mundo Te encontre e se deixe mover interiormente porque só assim age a lei do amor. Para que seja cada vez mais real a promessa de Deus escutada em Vigília Pascal, pelo Profeta Ezequiel: "Dar-vos-ei um coração novo e infundirei em vós um espírito novo. Arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne". (Ez 36, 25-26)

domingo, 16 de maio de 2010

Ascensão do Senhor

O tempo pascal está a chegar ao fim e a celebração da Ascensão de Jesus, à luz do Evangelho deste domingo (Lc 24, 46-53), recorda-nos o lema que escolhi para o tempo pascal deste ano: De Portas Abertas... E recorda-nos porque Jesus acrescenta, à necessidade da sua morte e ressurreição, uma nova necessidade derivada daquelas: o anúncio da Palavra. O abrir as portas.
E abrir as portas para anunciar a conversão e o perdão. Que conversão? A da forma religiosa, legal e justiceira de entender Deus que foi denunciada pela morte e ressurreição de Jesus de onde brotou a verdadeira face de Deus: amor. Que perdão? Aquele que se obtém quando quem ama, ama super-abundantemente (onde abunda o pecado, super-abunda o perdão), tal como a morte e ressurreição de Jesus assim nos revelam. Assim nos ama o Pai que nos perdoa porque não imaginamos o que fazemos...
Ser testemunha disto é a nossa missão. Para isto, se faz Páscoa. Para isto anunciar temos que estar de portas abertas ao mundo e à nova presença de Jesus que celebramos neste dia.
Jesus parte para ficar, a toda a hora, com todas as suas testemunhas. Jesus parte para não ser propriedade de ninguém. Jesus parte para não ser parte exclusiva de nenhuma nação, cultura, ideologia, igreja. Parte para poder germinar no local do mundo verdadeiramente real: o coração de cada homem e mulher. E nós temos que ser disso testemunhas, anunciadores, abençoadores.
Eis a grande notícia deste dia: Nós não estamos sós. Não somos órfãos. A Sua ausência é uma presença maior. A Sua ausência é um desafio à missão. A Sua ausência é um desafio à vivência profunda, espiritual e comprometida da nossa fé. A Sua ausência que é presença no coração homem, é desafio a não deixarmos de servir o outro. A Ascensão de Jesus, coloca-o no coração do mundo e lança-nos definitivamente ao encontro do Homem.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Porque Fui Celebrar com Bento XVI


Cheguei há poucas horas da celebração eucarística com o Papa Bento XVI, na Avenida dos Aliados, no Porto.
Quem me conhece ou vai lendo alguns posts que aqui vou colocando sabe que nem sempre partilho a visão do mundo e, principalmente, a visão eclesiológica do Pontífice da Igreja a que orgulhosamente pertenço. Mas, se existem avaliações injustas, ignorantes e apressadas sobre a sua pessoa, o seu pensamento, a sua acção ou o seu ministério tenho-o aqui denunciado. É verdade que existem sinais incómodos que Bento XVI vai deixando sobre a sua ideia de Igreja. A sua ânsia de expor a tradição da Igreja, a sua histórica busca da verdade e a solidez da sua mensagem, resistente ao passar dos séculos, trazem consigo equívocos que me fazem ter a convicção que o meu Papa não é, nem será a lufada de frescura do Espírito que o mundo precisa e que a Igreja de Jesus Cristo pede, não por busca de legitimidade ou de auditórios, mas por fidelidade ao Mestre de Nazaré.
Alguns daqueles sinais são estéticos e por isso passam ao lado de maioria das pessoas, mas estiveram bem à vista durante esta visita: o báculo que Bento XVI usa (substituindo o que Paulo VI encomendara ao escultor Lello Scorzelli, e que João Paulo II tornou uma sua imagem de marca) é uma cópia do báculo do Papa Pio IX (sim, o do juramento anti-modernista e do Syllabus); no altar das celebrações é exigida a colocação de sete candelabros e uma cruz, fazendo lembrar os altares tridentinos quando o sacerdote celebrava de costas para a assembleia; a obrigação dos comungantes das mãos do Papa o fazerem de joelhos. Ainda hoje, no Porto, lá tivemos o latim em toda a oração eucarística e não só, o predomínio do gregoriano e o uso exclusivo do órgão. Tudo bem, mas faltou calor, participação, comunhão celebrativa. Mesmo a homilia (a única que ouvi na íntegra nesta sua visita a Portugal) foi pobre na sua integração social e cultural, limitada na sua visão teológica e distante da realidade de um povo, de uma cidade e de uma diocese que precisam de conforto, alento e esperança.
É evidente que Bento XVI tem por vezes momentos inesquecíveis (as suas encíclicas, mais a primeira; o seu discurso em Auschwitz; as suas declarações no avião a caminho de Portugal, na condição de se estar a referir exclusivamente aos ministros pedófilos; a sua oportuna e descomplexada referência aos cem anos da implantação da Républica; etc); é evidente que o seu pensamento e a sua teologia não diferem muito da de João Paulo II (apesar do carisma e da espontaneidade deste fazerem esquecer o conteúdo do seu Pontificado); é evidente que há muito que o teólogo se eclipsou para dar lugar (e bem, porque sincero, oblativo e uma missão pessoal) ao "humilde trabalhador da vinha do Senhor"; é evidente que é e será um Papa de transição e, por tudo o que tem demonstrado, não ficará na história.
Então porque fui hoje ver o Papa?
Porque é o Apóstolo Pedro que vem visitar a Igreja peregrina no Porto que é sua, porque é o símbolo de comunhão, de apostolicidade, de colegialidade que são o âmago da minha fé na Igreja, porque nele acolho o passado, o presente e o futuro cristão, porque é o líder da Igreja que amo. Sim, que amo nas suas rugas, nos seus pecados, nas suas limitações, na sua lentidão e nas suas imensas, enormes virtudes. Que amo porque só o amor vence todas as desilusões, traições e divergências de opinião, visão, entendimento. Que amo como amo as pessoas mais significativas para mim: amo-as em tudo o que são.
A grande lição destes dias foi mesmo esta. As pessoas não acorreram às ruas por causa do carisma, da simpatia, do carinho e até de uma certa papolatria que acompanhavam João Paulo II. Bento XVI não é nada assim, e as pessoas foram, na mesma, ao seu encontro porque sentem-se Igreja e estão em comunhão (não em unicidade acéfala e acrítica) com o seu Pedro e com a Igreja (que é ele, os seus colegas no episcopado, no sacramento da ordem e nós seus leigos e missionários no centro da sociedade) que viverá e crescerá para lá de todos nós. Tudo aconteceu sem arrebanhamento organizado, mas simplesmente por vontade individual de cada cristão que sente a Igreja como sua e que o quis celebrar festivamente com muitos outros, irmanados numa grande família que não conhece distinções, nem entre santos e pecadores. Também por isso, muitas mudanças urgem. Com certeza, somente dentro de alguns momentos... ao ritmo do acolhimento das luzes do Espírito.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Palavras Surpreendentes

Vão cheios os meus dias. Nem sequer na televisão vejo imagens da visita do Papa a Portugal, mas desconfio que o principal não estará nas imagens, mas nas palavras. Mais logo espero colocar aqui um texto sobre esta visita. Mas, li há pouco o discurso de Bento XVI aos homens e mulheres da cultura reunidos hoje no CCB e não resisto em colocar aqui o final das suas palavras. É por frases destas que vale a pena acompanhar o pensamento de Bento XVI.

Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza.

Eis a missão da Igreja: estimular a busca da verdade, levar as pessoas a olhar para lá da espuma, sempre superficial, dos dias e das coisas. Eis um desafio aos homens da cultura: (re)descobrir o cristianismo e tornar a vida um lugar de beleza.

domingo, 9 de maio de 2010

VI Domingo da Páscoa

O domingo de Páscoa já foi há seis semanas e muitos de nós já sentimos na pele a torrente dos dias, a limitação das horas, o cansaço acumulado, o esfumar-se da esperança, enfim uma profunda, exterior e interior, falta de paz. E nestas alturas todas as nossas portas de fecham; não damos oportunidade a ninguém: nem a Ele, nem ao outro, nem à alegria, nem à esperança. Por tudo isso, vale a pena (como sempre) escutar hoje o Mestre, no Evangelho.
Ele diz-nos que nos deixa a sua paz, que é uma paz nova, que não é uma paz negociada, acordada sobre vários cadáveres, que não é a paz da irresponsabilidade, do ter, do gozar, do estar acima de, mas que é paz de nos sabermos amados e habitados por Deus ("meu Pai o amará; Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada") porque escutamos e guardamos a única palavra de vida e de paz que é a de Jesus.
Nós os cristãos cansamo-nos como os outros, mas não desesperamos; sentimos e experimentamos a tristeza, a dor e a solidão, mas não nos deixamos abater, não desistimos de lutar, não nos fechamos orgulhosamente sós; deixamos que o stress habite os nossos dias, mas não nos perturbamos nem nos intimidamos porque somos habitados por Deus, porque o Espírito de Jesus, a sua única e verdadeira lei, age, fala e inspira não desde fora, mas no interior da nossa inteligência e do nosso coração. Se amamos é porque deixamos o Espírito de Jesus agir em nós. Assim, como todos, podemos sentir o sem sentido, mas não nos entregamos a ele porque nos entregamos a um Deus que não fala do cimo da montanha, que não se esconde em lugares indignos para os humanos, que não vive ostensivamente separado do homem, que não impõe purificações nem oblações mas que está e age no coração do mundo: em nós.
Assim, caminhamos confiantes porque temos os olhos, as mãos, o coração, a vida colocados num Deus de portas abertas a todos os homens e mulheres de hoje e de sempre. Que grande notícia. Que esperamos por a proclamar? Homem Deus está em ti, se o matas és tu que pereces não porque ele te castigue, mas porque não te entendes nem entendes a vida sem Ele e o mundo seria um lugar mortalmente inóspito. Se lhe dás oportunidade, és tu que vencerás. Tudo. Até a morte.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

V Domingo da Páscoa

Quando Judas abandona o Cenáculo para consumar a sua traição, Jesus afirma que se tinha dado início à glória de Deus. Mas como pode a morte de um justo, melhor, do justo, ser a glória de Deus? Pode enquanto for acto de amor pelos outros. A glória de Deus é o amor entre os homens, a glória de Deus é o amor feito gestos concretos pelo irmão, a verdadeira glorificação do nome de Deus é quando amo como Jesus amou, é quando amo dando a vida em todos os momentos do meu dia, em todas as palavras que prenuncio, em todos os gestos que desenho no meu quotidiano em favor do outro. A glória de Deus é o amor entre os homens.
Por isso, Jesus não podiam deixar senão um mandamento. Um porque o amor basta, um porque o amor é liberdade, um porque o amor é liberalidade, um porque o amor é um gesto que não nasce de instâncias exteriores que impõem, mas nasce e exige do e o coração do homem.
E é novo porque nunca nenhuma religião, sociedade ou poder tinham ido tão longe em acreditar na possibilidade do homem poder acolher no seu íntimo algo tão grande como o amor à imagem de Jesus. Novo porque é único. Novo porque a verdadeira lei que anula o legalismo é amar e amar ao estilo, à maneira de Jesus. E amar quem? Não, não é amar a Deus. Jesus ultrapassa mais uma vez toda a história e todos os hábitos: amar é o outro, o irmão, o só, o esquecido, o marginalizado, aquele que come à nossa mesa, que se deita connosco, que vemos crescer, com quem trabalhamos, a quem ensinamos... E ama-los morrendo, dando a vida, entregando-se. Amar é mais do que não matar, é fazer viver, dignificar, levantar, aceitar e fazer crescer o outro. Amar é mais que não roubar, é dar sempre vida, alegria, é encher o outro com a riqueza da minha mão estendida, do saber escutar, do estar com. Amar é mais que não cobiçar, é distribuir, é repartir, é dar, não do que sobra, mas o que se tem e não se tem. Amar, é mais que respeitar, é entregar-se todo, é oferecer tudo, é esquecer-se de si porque na sua memória só se traz o outro.
Amar é o único sinal que não é ambíguo. Numa Igreja de portas abertas a Cristo, ao seu Espírito, ao mundo e entre si só o amor a pode motivar, inspirar, mover as suas palavras e gestos. Se amar, ninguém a criticará, ninguém lhe apontará o dedo, ninguém a abandonará. Tudo o resto (sacramentos, imagens, arte, monumentos, cerimónias, peregrinações, etc.) é ambíguo, confuso, muitas dessas coisas perderam o sinal e o seu carácter profético. Só o amor, o amai-vos como Eu vos amei será sinal e convite a entrar, de novo ou pela primeira vez, no seio do corpo de Cristo, na história. Enfim, só pelo amor "conhecerão que sois meus discípulos".

terça-feira, 27 de abril de 2010

A Propósito de Uma Nuvem

Na quinta-feira passada, participei numa iniciativa do Serviço de Humanização do Hospital de S. João, subordinada ao tema A Morte e o Morrer no Hospital. O meu amigo João Pedro convidou-me a ler uns poemas do Daniel Faria que intercalavam, com momentos musicais a cargo da Escola de Artes da Universidade Católica, as diferentes intervenções que foram sendo feitas. Infelizmente, não pude ficar até ao fim porque tinha uma aula para dar às 12h. Mas escutei a abertura dos trabalhos pelo presidente do Serviço de Humanização, a intervenção sincera do director clínico do hospital (que sublinhou a dificuldade dos médicos em geral em lidarem com a morte) e a magnifica reflexão sobre aquele tema do também meu amigo José Nuno, padre e capelão do hospital.
Gostaria de aqui relacionar o apelo que o padre Nuno fez para que a medicina se libertasse do paradigma tecnológico para se tornar no que é na sua essência: humana e humanizadora. Uma medicina que se cinja às questões técnicas, à máquina, à eficiência acabará por abordar o doente, o moribundo, o cadáver como uma peça de uma engrenagem e não como um ser com uma história, um contexto social, com um valor único e original, enfim como uma pessoa.
Escutava, então, o meu amigo (que falou com muita maior densidade, justificação e beleza do que expus) e pensava na nuvem de cinzas que durante dias paralisou vários aeroportos por toda a Europa. Pensamos nós que a tecnologia nos tornou mais livres, mais poderosos e com maior qualidade de vida que os nossos antepassados recentes. Não duvido que facilitou muita coisa, que melhorou muitos serviços (como por exemplo a saúde), que permite infindáveis possibilidades. Mas a realidade, é que se a deixarmos tomar conta de tudo desumanizamo-nos, fechamo-nos, passamos a viver para a eficácia e as estatísticas, esquecemos o que nos distingue de tudo o que nos rodeia, deixamos de ser médicos, professores, pais, etc e passamos a ser técnicos... E basta uma antiquíssima forma de a natureza se manifestar para nos mostrar como, afinal, a tecnologia nos prende nos aeroportos, nos faz perder milhões, nos faz sentir impotentes e torna inúteis todas as possibilidades técnicas que temos. Aliás, sempre que saio de casa ou procuro alguma coisa irrito-me com a quantidade de máquinas que me pesam, com os aparelhos para tanta coisa e que tanto espaço mental e material ocupam, com os inúmeros cartões, códigos e afins que ocupam as carteiras e a memória quando ainda, há trinta anos atrás ia para a escola com uma simples pasta de couro às costas, sem dinheiro e desconectado do resto da família e do mundo.
Não estou a estigmatizar nada, apenas a afirmar que não acredito que sejamos mais livres nem mais desenvolvidos humanamente que os meus avós. Aliás, tenho a certeza de que estamos muito mais vulneráveis do que eles.

Porque é tão bonito, tão humano e tão pouco tecnológico aqui deixo um dos poemas do meu amigo Daniel lidos na quinta-feira:

A noite veloz bate a lâmpada azul contra as casas
A luz que estilhaça
A sirene. A noite bate na luz da lâmpada
Quebrando-a

Soubesse eu a canção que cantam os mortos para não adormecer
Soubesse eu soldar o silêncio

Existe sempre alguém que passa e bate na noite
A zumbidora lâmpada azul para não adormecer
Na morte

Soubesse eu estilhaçar a noite. Soubesse eu morrer
Iluminando

domingo, 25 de abril de 2010

IV Domingo do Tempo Pascal

O pequeno Evangelho de hoje insere-se claramente no ambiente pascal que estamos a viver: nós somos alvo da oferta da Vida por parte de Jesus e a nossa certeza de que essa vida jamais nos será tirada é a união tão profunda como substancial entre o Pai e o Filho, uma união amorosa tão forte e maior que tudo, pelo que ninguém poderá arrebatar do coração de Deus o nome de cada um de nós.
E isto é possível porque Ele conhece-nos, sabe de que é feito o nosso coração, compreende as nossas fraquezas, acredita nas nossas forças, entusiasma-se com os nossos periclitantes passos, que parecem sempre recomeçar, chama-nos pelo nome, espera-nos quando nos atrasamos, não deixa de falar para que o possamos, um dia e sem constrangimentos, escutar.
Eis os verbos que têm Jesus, o único bom pastor, como sujeito: conhecer e dar a vida.
Eis o que pode vir de Deus: conhecer, que não é um acto intelectual, mas que biblicamente é estar próximo de..., partilhar com..., ser responsável de..., vinculado vitalmente a...
Eis o que pode vir de Deus: a dádiva da vida eterna reforçada, no texto, pela afirmação de que nunca iremos perecer e de que nada nos arrebatará da minha mão que é a mão do Pai.
Sob o lema pascal, De Portas Abertas, o evangelho de hoje volta a trazer-nos ao coração (recordar) um Deus de portas abertas ao homem, um Deus de coração aberto ao homem para que ele viva. Mas também é um desafio aos pastores da Igreja de hoje: só é pastor quem conhece (no sentido referido em cima) as "suas" (com aspas porque não são suas, mas do Mestre) ovelhas e quem lhes anuncia alegremente a vida que para todos vem do Pai, pelo filho Jesus. Aos pastores de hoje pede-se que estejam de portas abertas e a ninguém encerrem as portas da vida porque a todos Jesus estende a mão para caminhar com... e todos estamos inscritos no coração amoroso do Pai.

domingo, 18 de abril de 2010

III Domingo da Páscoa

Costuma-se olhar para esta cena do último capítulo do Evangelho de S. João como se a sua pescaria fosse um regresso dos discípulos à sua actividade anterior imbuídos por um desânimo, uma noite escura da sua fé. Esta interpretação deixa-me insatisfeito porque faz uma interpretação simbólica descontinuada. Por isso, hoje vou propor-vos uma leitura inteiramente simbólica do evangelho deste domingo que penso constituir uma boa alternativa para a nossa reflexão sobre a situação actual da Igreja, que queremos de portas aberta porque a isso nos exige a fé na Páscoa de Jesus.
No Evangelho de hoje temos um grupo de sete discípulos, que, liderados pela palavra de Pedro, vão pescar para o mar de Tiberíades. Isto é, temos a Igreja (sete querer dizer a totalidade dos crentes), motivada pela palavra do seu líder (Vou pescar), a partir para a missão, para o anúncio da Palavra , para o ser pescador de homens. E partem para a missão em pleno território pagão, por isso o nome do lago usado é o de Tiberíades derivado do imperador romano Tibério. Temos, então, a Igreja em missão, na noite e a sentir na pele a esterilidade da sua palavra, a incapacidade de se fazer compreender, o sentir que não consegue, por diferentes circunstâncias, afirmar o centro e o essencial da sua grande notícia para toda a humanidade. Era de noite e não apanharam nada... Que católico não se sente hoje assim: abre as portas, mas a ninguém parece interessar o que tem para anunciar e dar, apenas nos atiram à cara notícias novas e velhas, sem nos dar sequer a oportunidade de lhes mostrar o que alimenta a nossa esperança.
E eis que surge o Mestre, hoje de novo, para nos indicar o caminho. Primeiro, recorda-nos que o que temos para comer, o alimento da nossa fé é Ele, a sua Palavra, é a ela que devemos obedecer e não às nossas leis, tradições ou regras que o passar da história nos foi impondo. Não devemos insistir no velho, no hábito, mudem de método, de rumo e deixem-se iluminar pelo amanhecer pascal que é grávido de novidade (Ao romper da manhã... Disse-lhes Jesus: Tendes alguma coisa de comer? ... Lançai as redes para a direita...). E nesta altura tudo se transforma, a rede enche-se porque fomos fieis ao Mestre e não a nós e à nossa história e às nossas leis.
Nesta altura, o discípulo que Jesus amava [personagem que representa a comunidade de todos os crentes, dos mais humildes, daqueles que foram até aos pés da cruz, daqueles que não sendo líderes, são fieis. Aquela comunidade a quem Jesus encomendou que fosse mãe (Eis o teu filho. Eis a tua mãe) e a quem entregou o Espírito ao morrer] reconhece o Mestre e comunica-o a Pedro. E este escuta a comunidade. Eis a outra grande lição para a Igreja hoje: o verdadeiro líder é aquele que escuta a sua comunidade, que dá espaço às suas intuições, que crê que nela são muitos os que olham a vida atentamente e lá descobrem o Mestre que nos une. No mundo em que vivemos, só uma Igreja de portas abertas entre todos os seus membros poderá ser sinal atraente e encher-se de novos membros.
E Pedro, porque escuta, é o primeiro, é a cabeça no entusiasmo (lançou-se ao mar), é o primeiro a ajudar os companheiros (subiu ao barco e puxou a rede para terra), é o primeiro no amor (Amas-Me mais do que estes?), é o primeiro a reconhecer os seus fracassos (entristeceu-se por Jesus lhe ter perguntado pela terceira vez se O amava), é o primeiro na humildade (tu sabes tudo tu sabes que Te amo), é o primeiro a perceber que as ovelhas que apascenta não são sua posse, mas posse do Mestre (apascenta as minhas ovelhas). Assim devem-se entender e agir os líderes da Igreja de Jesus Cristo Ressuscitado: com entusiasmo, amor, humildade e sem sentimentos de posse nem de domínio sobre nada nem ninguém.
Na sua acção no mundo, a Igreja sabe que não cumprirá a sua missão dividindo, isto é, nela cabem todos os homens e mulheres, de todas a formas de estar na vida, de todas as opiniões, com todos os erros de que se querem emendar, de todas as classes e lugares geográficos, sociais, ideológicos e políticos. A Igreja não divide, não reproduz dentro de si o que a economia realiza na sociedade, a Igreja agrega e não cinde. A rede não se rompeu com todos os 153 grandes peixes, isto é com todos os povos da terra.
Finalmente, de novo e para terminar, a Igreja percebe que o seu alimento, a sua energia, o retemperar das suas forças só se dá no seu Mestre, no seu alimento, na sua companhia, no inclinar a cabeça sobre o seu peito, tal como fez o discípulo amado na última ceia: "Quando saltaram em terra viram brasas acesas com peixe em cima e pão....Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com os peixes". E não precisamos de o ver, basta repetirmos tal gesto de partilha entre nós e para todos os homens. Basta reunirmo-nos em nome d'Ele e Ele aí estará.
Se a pesca está a correr mal, se a noite se impõe sobre os nossos horizontes, então é porque o nosso Mestre está à margem da nossa acção, nós estamos a leste da sua voz e do seu alimento e quem nos lidera nem O escuta nem escuta a comunidade. Estamos de portas fechadas a Ele e entre nós. Que a Páscoa de Jesus nos ajude a abrir as portas ao mundo e dentro da sua Igreja. Só assim veremos o sol da novidade que amanhece, nos sentiremos membros da mesma barca, abertos a novos rumos, e os homens estarão dispostos a dar-nos uma oportunidade.