terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quem Quer Aprender?

Na sexta-feira estive toda a tarde com o meu amigo José Rui Teixeira a trabalhar na dimensão da evangelização do plano estratégico para o triénio 2010/2013, para o Colégio Luso-Francês. Esse plano tem envolvido uma equipa entusiasmada e empenhada em manter e melhorar a excelência daquela casa de que falarei dentro de dias. Não falo já hoje porque a manchete do Expresso de sábado não me deixa. Quando pensávamos que todas as experiências com a educação em Portugal estavam feitas, eis que surge mais uma luminária disfarçada de ministra: há que acabar com as reprovações. O argumento é fantástico: a OCDE propõe aos países do sul da Europa que sigam o exemplo dos seus congéneres nórdicos que não têm reprovações e que têm grandes resultados nos testes internacionais.
O problema é que a OCDE não conhece e a ministra e os seus acólitos fingem não conhecer algo bem enraizado na cultura nacional: o desenrasca, o chico-espertismo, a falta de valor pelo saber e a vitória do pragmatismo. Deixo só dois exemplos. O colégio bate-se com uma grande dificuldade em manter os seus alunos (alguns deles dos melhores) depois do 9º ano. Porquê? A resposta é eloquente do país que temos: porque é muito exigente a todas as disciplinas. Porque exige empenho, estudo e trabalho a filosofia, a educação física, a inglês, etc. disciplinas que não têm exames nacionais e que, a que quem quer medicina (a deusa dos pais), não interessam. Exactamente. O problema do colégio é que obriga a saber, exige trabalho, implica aplicação. E os pais ou os alunos o que fazem? Fogem para colégios, externatos onde tudo é facilitado, onde se anulam disciplinas no início do ano e depois faz-se exames internos para se atingir notas estratosféricas, onde alunos no colégio com níveis de 12/13 atingem 19/20. Isto prova que o importante para o português não é saber, não é acumular competências para a vida, mas simplesmente conseguir algo, não importa como.
Segundo exemplo. É inacreditável a quantidade de pessoal a copiar nos exames da faculdade. Já quando tinha andado em Teologia, na década de noventa do século passado, o verificara. Este ano, lá voltei a encontrar os descarados e desonestos que copiam, copiam e depois se pavoneiam com as suas notas mentirosas. Ainda são alguns e não pensem que são só alunos mais novos. Também alguns dos mais velhos, com marido/esposa e filhos, que deviam ter outra postura, também o fazem. O que é que isto prova? Aquilo que tenho vindo a demonstrar: o importante, em Portugal, não é o saber mas o tirar um curso, uma nota, chegar a um estrato social.
Num mundo ideal, onde a cidadania fosse um valor, onde o mérito fosse reconhecido, onde a competência fosse elogiada, onde o rigor e a exigência fossem norma, então sim as reprovações não tinham sentido. Mas, num país onde são os próprios pais que pressionam os filhos a optar pelo mais fácil, pelo caminho mais plano não creio que o caminho seja mais facilitismo. Claro que se a intenção for a estatísticas então força, alarguem as Novas Oportunidades a todos os ciclos de ensino, mas não enganem os incautos, não venham com os argumentos dos estudos e das organizações internacionais porque, na verdade, o que dói ao Estado é que os chumbos custam ao país 600 milhões de euros por ano. Mas isso não se resolve com passagens administrativas (gostava de saber quantos políticos e membros daquele ministério beneficiaram delas nos famosos anos quentes depois do 25 de Abril de 1974) que é do que realmente se está a falar. Isso resolve-se com competência no governar, paixão no ensinar e sacrifício no aprender. O resto é conversa da treta.

3 comentários:

Maria disse...

Fernando, faço minhas as tuas palavras... E sabes muito bem que na minha/tua escola ao lado, com uma realidade social, económica e cultural completamente diferente, em que as expectativas de alunos e pais/EE face ao percurso escolar são reduzidas, o resultado efectivo é e será o mesmo...
Se neste momento, na escola pública, os professores já quase fazem o "pino" para motivarem minimamente a maioria dos alunos (porque graças a Deus também temos honrosas excepções...), a partir de agora será o descalabro...
Esta ideia das não reprovações, aliada à dos Mega Agrupamentos vs encerramento de escolas com menos de 21 alunos, somada à definição de Metas de Aprendizagem e à falsa ideia da desburocratização do trabalho dos professores... são algumas "pérolas dum colar de disparates" feito apenas no mês de Julho...
Ah!... já me esquecia da renovação do Estatuto do Aluno que está para sair em breve... agora que os alunos voltariam a reprovar por faltas injustificadas (segundo me parece...) vão começar a não reprovar pelo seu aproveitamento...
A estas ideias, como a tantas outras que "pululam" desde há tempos no nosso sistema educativo, chamo-lhes eu -ideias "peregrinas"-(numa lógica de contraste com o sentido e conceito de Peregrino): vêm de longínquos lugares e culturas... caminham aos tropeções e com muita dificuldade pois não se adaptam ao nosso terreno... perdem-se e fazem com que aqueles que as seguem se percam também...nao têm objectivos no caminhar e muito menos fé... pois ninguém acredita que "isto tudo" se implementa como uma estratégia pedagógica de melhoria da qualidade do ensino em Portugal...
Desculpa Fernando o longo desabafo mas é cada vez mais desmotivante ser professora...
Beijinhos (especialmente para a tua Mafalda..)e boas férias...
Elsa Lopes

Fernando Mota disse...

Não tens que pedir desculpas. É um comentário oportuno que acrescenta ainda mais disparates que agora me passam mais ao lado (eu acho que esta gente do ministério deve ter um concurso interno de disparates). Enfim, só mudou a cara e a simpatia, as políticas deseducativas continuam. E pior, de sorriso nos lábios... Boas férias, amiga.

Alírio Camposana disse...

De acordo. O "facilitismo" é inimigo da qualidade. Um dia, essas pessoas vão prestar um mau contributo nas organizações onde se venham a inserir e, deste modo, se vai eternizar a mediocridade geral.

Por outro lado, pessoalmente, não gosto de "exames" nem de "frequências". Um dia, nas empresas ou nos serviços, os profissionais não realizarão os seus trabalhos suportados na memória, mas sim com recurso a ferramentas de conhecimento porventura dinâmicas e actualizáveis!

Acredito muito mais em trabalho desenvolvidos com base em pesquisa séria, em fontes credíveis, em metodologias, porque não, assentes nas "novas tecnologias". Para mim, tem muito maias valor uma fundamentação teórica devidamente elaborada que sustente as práticas, do que o conhecimento momentâneo e tanta vezes assente na memorização.

Tive uma Professora que me ensinou uma coisa muito interessante: não importa muito o "saber" mas sim "saber saber"!

Um abraço.