quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

No Rescaldo de Um Exame de Estética

O que mais gosto no curso que estou a tirar - Filosofia - é o seu contributo para cultivar um forma diferente de pensar e de olhar. É a capacidade característica que ele permite em questionar o senso comum, em reflectir o aparentemente óbvio e em nunca entender as conclusões como um sistema fechado, uma definição conceptual concluída e definitiva. Algumas horas depois do exame de Estética fica o doce sabor, não de um exame bem feito (que não foi o caso nem para o qual estava particularmente preparado), mas de uma pedagogia do olhar que o estudo desta disciplina me deixou. Lamento mesmo muito não ter podido ir a nenhuma aula.
Diz Rilke que "os nossos olhos estão virados inteiramente para si mesmos", isto é vêem o que não se mostra, vêem como se vê quando se vê. Vêem o invisível, não que algo esteja escondido (sensível ou supra-sensível) na obra de arte, mas o invisível que é a forma como olho. Quando olhamos, o invisível é o nosso olhar e se nos determos atenta e reflexivamente nele vemos nascer um mundo novo, sem começo nem fim, o nosso mundo, aquilo que somos. Por isso, quando olho um quadro ou escuto uma música não procuro descobrir o que o autor tenta dizer ou como se sentia, procuro, sim, é perceber quem sou, como vejo ou como escuto. Assim toda a arte que é arte é abstracta porque não tem em si um significado, uma intenção, mas uma pluralidade de sentidos que brotam do meu próprio corpo lançado no mundo.
Das várias obras apresentadas deixo aqui uma de Edvard Munch, da fase do seu conhecido Grito. Chama-se Ansiedade e penso poder ser uma parábola do homem contemporâneo que fica à consideração de quem a quiser contemplar. Coloco-a ao lado de outra ainda menos conhecida, Desespero, porque simplesmente assim, lado a lado, completam o meu olhar.

2 comentários:

AVC disse...

Amigo Fernando,

Mais uma abordagem, brilhante, como já nos habituaste!

A Filosofia é, porventura, a ciência das ciências já que nos permite um passo de aproximação à própria realidade, inatingível, enquanto produto dos sentidos.

Cada um de nós, porventura, percepciona essa mesma realidade de acordo com muitos factores mas,de facto, a realidade deve existir, algures, exteriormente a nós próprios e embora também se forme nas nossas percepções.

Perdoa esta minha tentativa, tosca, de filosofar, mas gostava de saber o que pensas da localização da realidade!

Uma vez vi um filme que, basicamente, descrevia a forma de se viajar quimicamente até à suposta memória primordial escrita, algures, no código genético das células, memória essa acumulada ao longo de milhões de anos. Durante o processo, com recurso a ferramentas utilizadas por Xamans, regredia-se e acedia-se a essa memória primordial viajando-se (a cores) até ao momento da própria criação.

Imagina uma coisa assim e como seria maravilhosa! Tudo nos seria desvendado aqui e agora, só não sei se estaríamos preparados para o impacto. Acho que alguns de nós estariam mais preparados do que outros. Outros, teriam o caminho facilitado, pois o seu instinto lhes serve de suporte. Quanto a mim, tenho dias, mas acredito no meu instinto de que, de algum modo, um dia, estarei mais perto da Verdade absoluta e do seu entendimento. Talvez essa seja a tal realidade que nos escapa aos sentidos!


Um abraço.

Alírio

Fernando Mota disse...

Realmente, num mundo onde é possível a ilusão como ter a certeza sobre o real? Se os sentidos nos enganam, como podermos falar de realidade?
Parece irresolúvel tal situação, no entanto, estou convencido que algo nos diz interiormente, um senso comum, que o que vemos é a realidade que não está ao alcance de nenhum iluminado, mas está aí à mão do olhar de quem se desafia a interrogar os dias e as convicções gerais. Talvez por isso, chegamos como espécie até aqui.
Será o acto de perguntar e de pôr em questão que nos revelará a nossa condição: contingentes sempre em busca da incontingência. Talvez por isso estejamos neste estádio de evolução e, ao mesmo tempo, sempre com as mesmas questões sempre antigas e novas.
Obrigado pelo teu comentário sempre estimulante. Continuemos à procura...