sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Em resposta ao André

O André, um grande amigo meu desde os tempos do grupo de jovens da Reguenga, deixou um estimulante e inteligente comentário ao meu post sobre a campanha publicitária nos autocarros londrinos. Pensei responder-lhe por mail mas como não tenho o seu contacto, recorro a este espaço esperando não ser fastidioso.
É evidente que tudo está sobre escrutínio cientifico. A teologia, em consonância com o espírito cientifico, aceita as coisas na medida em que sejam verificáveis a partir da especificidade da sua forma de enfrentar a realidade. O ilegítimo é procurar provas empíricas e fisicamente controláveis para realidades que por definição transcendem o físico e o empírico. Algo que a própria ciência hoje está em melhores condições de o perceber pois os seus muitos teoremas estão carregados de pressupostos e marcados pela subjectividade humana. Ora, a teologia oferece uma interpretação da realidade, que, pelo nível em que se situa, não cai sobre a competência dos métodos científicos, mas que se oferece ao exame e verificação de todo aquele que queira examinar o seu justo nível. (Cf. Andrés Queiruga) O saber científico e o saber religioso partem da observação da realidade e esta fica mais enriquecida pelo contributo dos dois âmbitos do saber. O discurso religioso, em dialéctica com o discurso cientifico, tornar-se-á criativo, estimulante para os crentes e credível para os não crentes. As ciências recebem da teologia a incansável notificação dos seus limites e a religião, pela ciência, conhecerá melhor o mundo em que vivemos. "Para o cientista exigente, que não se encerra no campo limitado do seu domínio de saber objectivo e objectivante e que se abre à pergunta filosófica e religiosa pelo fundamento, valor e sentido últimos da realidade toda, a questão de Deus enquanto questão não pode ser eliminada" (Anselmo Borges)
No entanto, e reafirmo, a razão não pode demonstrar Deus, já que essa demonstração mostraria que Deus seria menos que a razão. O Deus demonstrável é um ídolo. Deus é descoberto numa experiência de fé ("Este homem é na verdade filho de Deus"), que pode e deve ser articulada racionalmente. Aliás, o Deus dos cristãos não pretende que o descubramos, o adoremos ou o provemos. Não. Ao revelar-se Deus não procura que O afirmemos mas que nos amemos uns aos outros. O interesse do Deus cristão não é Ele, mas os seres humanos. Como diz o teólogo Faus: "o que importa a Deus não é que saibamos que Ele existe (como se fosse um filho da nossa cultura da publicidade) mas que nos amemos".
É evidente, e termino como comecei, que nada disto impede a confrontação entre argumentos crentes e não crentes nem muito menos o extraordinário diálogo (e muito frutuoso para a evolução do discurso religioso nos últimos decénios) integrador de saberes com a cosmogonia e cosmologia (e não só) actuais e mais consensuais. Religião e ciência, no inicio de um novo milénio e em diálogo, são chamadas a aproximar-se das questões colocadas pelo grande Teilhard de Chardin: "Porque existem coisas? Porque têm elas um fim? Donde surgiu este ser que está em mim - que sou eu - e que não conhece a razão profunda da sua existência?".
Com certeza, as questões multiplicaram-se. Ainda bem. Meu amigo, está aberto o debate.

2 comentários:

Grupo de Jovens disse...

Há realidades que não se exprimem com palavras, nem se explicam com teorias.
Pois, seriam sempre limitativas dessa mesma realidade e redutoras da sua existência.
Há realidades que só podem ser verdadeiramente compreendidas quando sentidas e quando vividas concretamente...
O seu fascinío está aí mesmo, não são manipuláveis, escapam à pura subjectividade, na sua essência escapam à pura razão!

André disse...

Antes de mais deixe-me agradecer as palavras que me dirigiu.
Não é minha intensão fazer deste blog um fórum de discussão (ou melhor, uma via para o meu esclarecimento), pelo que lhe enviarei o meu email. Contudo, espero ainda que aceite o longo comentário que se segue.
Na dificuldade de aceder a alguma bibliografia e mesmo correndo o risco de ser pouco rigoroso espero deixar mais algumas questões interessantes. Porque como diz Frei Bento Domingues (já que estámos a citar artigos em jornais) “A questão acerca da existência de Deus – e como será Deus se existir – mantém toda a sua importância intelectual e pessoal nesta época pós-Darwin.”

O meu argumento começará com a defesa de que o pensamento logico-racional não tem obrigatoriamente de ser dedutivo, mas que poderá ser perfeitamente válido mesmo quando fundamentado em argumentos indutivos. Com esta distinção em mente, concordarei com o seu argumento de que a razão não poderá “provar” a existência de Deus. Mas vejo-me obrigado a perguntar se não será possivel inferir a sua existêcia. E se não será possivel inferir a sua existência apartir do conhecimento que fomos adquirindo ao longo dos séculos sobre a realidade que nos rodeia. (estou convencido de que a questão platónica se coloca no homem – ou seja, nas nossas limitações em observar a realidade – e não como um problema fundamental da realidade em não se revelar). E penso que necessitamos de analisar este problema se queremos perceber a “qualidade” de Deus, acaso concordemos na sua existência.

Esta questão parece-me tanto mais relevante quanto o nosso conhecimento de Deus poderá estar limitado pela nossa existência material, devido às propriedades do nosso corpo. A experiência pessoal que nos está imposta é necessariamente empírica. O contra argumento é o de uma existência mental independente da matéria (chamemos-lhe alma, ou espírito ou algo semelhante) que serviria de atalho para o divino. Pessoalmente prefiro a primeira explicação: tanto por achar que melhor se adequa às teoria cientificas vigentes, como por apresentar uma visão da nossa relação com Deus que acho mais “bonita”. E portanto, na falta de melhores argumentos, aceitá-la-ei.

Talvez a experiência empirica necessite da fé para uma interpretação que nos conduza a Deus, mas não necessitará também a fé também da nossa capacidade de racionalmente interpretarmos o nosso mundo? Aqui, além do conhecimento natural, há o argumento da revelação e da intervenção de Deus na história (também um argumento empírico). Citando alguém que ouvi recentemente: “tudo o que podemos saber de Deus, sabemo-lo atraves de Cristo, o resto são construções mais ou menos fundamentadas, mais ou menos interessantes”. Mas pergunto como perguntei então: mas que Jesus devemos interpelar: o Cristo de fé ou o Jesus histórico? Ou os dois?
E se optamos pelo último, o que sabemos sobre ele será muito pouco. Sobre o Cristo de fé, a mim sobra-me uma dúvida: de que forma a assimilação de parte da cultura grega (especialmente o platonismo) pela igreja afecta a mensagem que chegou até nós? (Penso que este tem sido um problema recorrente para a igreja desde os tempos da reforma, mas sobre isso poderá falar melhor do que eu).

“a razão não pode demonstrar Deus, já que essa demonstração mostraria que Deus é menos do que a razão.” Ouço-lhe este argumento há muito tempo e percebo-o, mas gostaria também de perguntar, na forma de uma provocação, se a acção de Deus está limitada pela lógica ou não. Esta questão é, penso, relevante para a existência temporal de Deus, ou para a sua total intemporalidade. E também aqui, a ciência nos propõe hoje, uma interpretação diferente do tempo métrico - como coordenada dimencional. Mas cá fica a minha provocação: estará Deus limitado por uma temporalidade causal?

Quanto ao problema do mandamento do amor deixo outra provocação: Marcos 12:28-31.
“Aproximou-se Dele um dos escribas que os ouvira discutir e, percebendo que lhes havia respondido bem, perguntou-lhe: Qual é o primeiro de todos os mandamentos?
Respondeu Jesus: O primeiro é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor.
Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças.
E o segundo é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que esses.”

Segundo Marcos, os mandamentos do amor são dois e Deus claramente nos pede que o amemos. E não sei se algo poderá ser inferido pela ordem em que são apresentados.
(já prevejo o argumento de que os dois não passam do mesmo mandamento)


Deixo ainda aqueles que para mim são os grandes desafios que a ciência deixa há filosofia e há religião: 1. Perante a existência de Deus, qual a razão da criação de um universo tão vasto, tão velho e tão violento, que salienta a nossa fragilidade, a efemeridade da nossa vida individual e colectiva e, porque não, a nossa irrelevância. 2. O porquê da criação de um universo probabilistico, onde a nossa existência depende da sorte (parece que Deus sempre joga os dados para contrariar Einstein). 3. A Evolução: e aqui principalmente os processos, como a selecção natural, que a explicam sem um propósito, que dispensam uma explicação pessoal.

Darwin forneceu-nos realmente a maior revolução filosófica que a ciência provocou até hoje e dai que o assunto seja ainda tão polémico.
Qual é o propósito da existência de uma bactéria, ou de um líquen? Nenhum, apenas são. Sistemas químicos organizados que não poderam senão ser, num universo como o nosso. E da mesma forma nós, existimos por um conjunto de acasos. E pensar em qualquer espécie de “Inteligent Design” parece-me profundamente descabido, pelo menos enquanto uma evolução direccionada (mas essa discussão pode ficar para depois).
E assim, fica entrevista a possibilidade de a respondosta a Teilhard de Chardin seja a de que existimos porque sim, de que não tem de haver um designio para a nossa existência.


Mudando de assunto e falando de fé: alguma vez leu o livro de Jacob Neusner “A Rabi Talks with Jesus?” não sei se está traduzido para Português mas caso esteja recomendo vivamente.

André