Além dos encontros familiares e das celebrações religiosas, estas férias de Natal caracterizam-se por muito trabalho individual. Finalmente comecei a escrever a minha última unidade lectiva para os manuais de EMRC, organizo apontamentos para começar a estudar para os exames da faculdade e planifico o meu segundo período no colégio. Ontem tive reunião, no Porto, toda a manhã, com a equipa de elaboração dos manuais e à tarde regressei aos meus apontamentos sobre a Igreja, tema da referida unidade lectiva.
Neste último dia do ano, gostaria de deixar aqui uma pequena reflexão sobre o tempo. Os gregos tinham duas formas de falar de tempo: cronos e kairós. Cronos, na mitologia grega, é o tempo e a divindade que mutila o pai e devora os filhos, desligando-se do passado e dizendo não ao futuro, respectivamente. Assim, cronos é o tempo do momento, fragmentado, sem sentido, sem liberdade, sem história. O cronos é como esses não-lugares que pululam nas cidades: o átrio da estação por onde todos passam, mas que nada é como lugar de encontro, de urbanidade, de relações; as salas de espera de uma qualquer repartição de finanças ou loja do cidadão; essas praças centrais por onde todos passam mas ninguém se vê e permanece. Cronos é o tempo da solidão, do vazio, do isolamento na história e no mundo, onde nada acontece, onde tudo passa inexoravelmente. O passado não existe nem se lê nem se valoriza e o futuro é o que for, nada se aforra, nada se prepara, nada se espera. Por isso, é que o fim-de-ano me incomoda. Primeiro, porque parece que o Natal já era (e não, amanha faz oito dias que aconteceu e para os crentes ainda é dia de Natal) e depois e por isso, há que arranjar depressa outra festa, outra celebração porque não aguentamos o tédio que é viver e a percepção de que tudo passa tão depressa. Então lá surge este dia, como outros ou como o fim-de-semana, em que há que voltar a subir as sensações, as experiências, os êxtases para que as emoções à flor da pele nos impeçam de pensar os dias, olhar o tempo e procurar o sentido de um tempo que nos parece trazer presos na sua voracidade e circularidade.
O kairós é o tempo como momento oportuno, oportunidade, o tempo aberto à surpresa e ao mistério do outro em toda a sua originalidade e dramaticidade. É o tempo de Deus e do Homem, o tempo do Natal e da Páscoa, o tempo em que se assume o que se foi, é e perspectivasse e constrói-se o que se será. O kairós é o momento de fazer o amanhã, aprendendo com o ontem. É o tempo como local de salvação, isto é com sentido e não à deriva. É o tempo não como prisão, mas como oportunidade a ir mais além.
Assim, entro no novo ano com uma tranquilidade absoluta e uma esperança resoluta no futuro. O que será 2010? Uma oportunidade à vida e ao outro. O resto serão acontecimentos com que tentarei ler e significar a história. Como vou passar o ano? Com aqueles que mais me são significativos porque o tempo é lugar de encontro e de partilha. E não algo que se consome e me consome. Deixa marcas? Ainda bem, são sinal de vivi e vivo a vida...
Um bom 2010.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Sagrada Família de Jesus, Maria e José
Que pode a família de Nazaré dizer às famílias de hoje? Que sinais orientadores encontramos neste Evangelho, conhecido pela perca e encontro do menino Jesus no templo de Jerusalém?
Um grande sinal: um filho é sempre desconcertante. Para os pais e para o mundo. Sei que o texto é uma construção de Lucas que já nos apresenta Jesus como sinal de contradição entre o poder religioso e o poder paternal e prenúncio da relativização que Jesus fará da família carnal, diante da possibilidade da abertura à família humana (Quem são a minha mãe e os meus irmãos? Aqueles que escutam a Palavra de Deus, dirá Jesus). Mas, penso poder dizer que Jesus é o iluminador da família cristã actual, na medida que consiga fazer passar no seu seio dois valores fundamentais: a liberdade e o saber viver como irmãos.
A liberdade que nos vem de Jesus é a liberdade que não se deixa manietar pela incompreensão e o fechamento à novidade das estruturas de poder que nos rodeiam socialmente. A família também pode ser uma ignóbil e injusta estrutura de poder se servir de abrigo a violências, a injustiças, a descriminações, a manipulações psicológicas, à perpetuação de estratificações sociais e económicas. Por vezes, na justa ânsia de defender a família temos tendência em ocultar dramas e prisões que ela muitas vezes legitima. Na família inspirada pela família de Jesus a liberdade de quem sabe que existem valores maiores que a carne e o sangue leva a que vejamos todo o outro como irmão e, por isso, aquela família será sempre um espaço de liberdade e de encontro voluntário, onde todas as diferenças têm lugar, tal como (deveria ser) a Igreja de Cristo.
O caminho dos filhos nem sempre coincide com o dos sonhos dos pais. Nem com o que a sociedade tinha estipulado. Assim, também o de Jesus. E isso, hoje, tal como então, provoca incompreensão ("Mas eles não entenderam as palavra que Jesus lhes disse"). A questão está em saber como agir com tal incompreensão. E aí Maria e José dão-nos mais uma lição: diante do mistério maior que temos entre mãos (um filho) só temos que o acompanhar a crescer, transmitir serenamente o que acreditamos e deixar que cresça em autonomia pessoal, intelectual e espiritual. E que cresça com e nunca contra.
Assim, a partir do evangelho de hoje, a família cristã deve ser um espaço que promove a autonomia adulta, a liberdade responsável, o compromisso social pelo outro e a abertura à novidade misteriosa que é cada ser humano. Só se assim for, vale a pena lutar pela tão referida família.
Um grande sinal: um filho é sempre desconcertante. Para os pais e para o mundo. Sei que o texto é uma construção de Lucas que já nos apresenta Jesus como sinal de contradição entre o poder religioso e o poder paternal e prenúncio da relativização que Jesus fará da família carnal, diante da possibilidade da abertura à família humana (Quem são a minha mãe e os meus irmãos? Aqueles que escutam a Palavra de Deus, dirá Jesus). Mas, penso poder dizer que Jesus é o iluminador da família cristã actual, na medida que consiga fazer passar no seu seio dois valores fundamentais: a liberdade e o saber viver como irmãos.
A liberdade que nos vem de Jesus é a liberdade que não se deixa manietar pela incompreensão e o fechamento à novidade das estruturas de poder que nos rodeiam socialmente. A família também pode ser uma ignóbil e injusta estrutura de poder se servir de abrigo a violências, a injustiças, a descriminações, a manipulações psicológicas, à perpetuação de estratificações sociais e económicas. Por vezes, na justa ânsia de defender a família temos tendência em ocultar dramas e prisões que ela muitas vezes legitima. Na família inspirada pela família de Jesus a liberdade de quem sabe que existem valores maiores que a carne e o sangue leva a que vejamos todo o outro como irmão e, por isso, aquela família será sempre um espaço de liberdade e de encontro voluntário, onde todas as diferenças têm lugar, tal como (deveria ser) a Igreja de Cristo.
O caminho dos filhos nem sempre coincide com o dos sonhos dos pais. Nem com o que a sociedade tinha estipulado. Assim, também o de Jesus. E isso, hoje, tal como então, provoca incompreensão ("Mas eles não entenderam as palavra que Jesus lhes disse"). A questão está em saber como agir com tal incompreensão. E aí Maria e José dão-nos mais uma lição: diante do mistério maior que temos entre mãos (um filho) só temos que o acompanhar a crescer, transmitir serenamente o que acreditamos e deixar que cresça em autonomia pessoal, intelectual e espiritual. E que cresça com e nunca contra.
Assim, a partir do evangelho de hoje, a família cristã deve ser um espaço que promove a autonomia adulta, a liberdade responsável, o compromisso social pelo outro e a abertura à novidade misteriosa que é cada ser humano. Só se assim for, vale a pena lutar pela tão referida família.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Mãe
Por feliz coincidência, este ano, o dia de aniversário da minha mãe calha neste domingo da Sagrada Família (amanhã colocarei aqui o meu comentário ao Evangelho) o que me provoca imediatamente algumas reflexões, que aqui deixo com todo o meu ser.
A minha mãe é a nossa família: por ela existimos, com ela crescemos, graças a ela ganhamos vigor, educação, um curso, um lugar na sociedade; à sua volta nos reunimos, é ela, por ela e com ela que nos juntamos, enfim se somos família foi e é porque ela nunca nos abandonou, mesmo quando não nos compreendia, mesmo quando a fazíamos sofrer, mesmo quando contrariávamos a sua vontade e os seus sonhos. Nós não somos uma sagrada família, longe disso, mas Ela é sagrada para a nossa família.
No Evangelho de hoje, Maria vira-se aflita, triste e até zangada para o seu filho fugidio e pergunta-lhe: "Filho, porque procedeste assim connosco?" A nossa mãe quantas vezes o disse a cada um de nós? E disse-o na primeira pessoa do singular porque nos ergueu só e corajosamente singular. Quantas vezes nos vem à memória as muitas vezes que a fizemos chorar solitariamente e sofrer com uma dignidade típica das mães? E melhor: quantas vezes a vimos e a vemos a reerguer-se quando já ninguém esperava e confiava na sua força, na sua capacidade de erguer a cabeça diante da sociedade, quando já ninguém suspeitava que tivesse lucidez e vontade para voltar a começar. Neste último ano, observamos como ela consegue viver diariamente sozinha, pela primeira vez em quase 40 anos, e, surpresa, consegue-o com uma garra, uma vontade e uma profunda confiança em si e na nossa companhia, reagindo vigorosamente às contrariedades.
E nesta solidão percebo o Evangelho quando diz que Maria "guardava todos estes acontecimentos no seu coração": assim vejo a minha mãe, no entardecer dos dias, por vezes suspirando por um mero telefonema dos filhos, a recordar (trazer ao coração) como era cada um de nós ao seu colo, como reagia cada um de nós ao seu chamar, como tudo começou, como nos criou a todos, trazendo à memória centenas de histórias em que partilhamos protagonismo com ela e como chegou agora a um tempo em que parece que é ela que está dependente dos filhos. Mas não. Cada dia que passa, mais te queremos agarrar, proteger, fazer parar o passar inexorável do tempo porque sentimos e sabemos que somos nós que não sabemos viver sem ti. Não te esqueças, quando nasci já tu vivias há muito. E vivias sem nenhum de nós. Nós é que não sabemos viver sem uma mãe. Nunca assim vivemos. E, quando um dia aprendermos a viver sem ti, foi sempre graças a tudo o que nos ensinaste.
Por tudo isto, estás e estarás sempre de parabéns.
A minha mãe é a nossa família: por ela existimos, com ela crescemos, graças a ela ganhamos vigor, educação, um curso, um lugar na sociedade; à sua volta nos reunimos, é ela, por ela e com ela que nos juntamos, enfim se somos família foi e é porque ela nunca nos abandonou, mesmo quando não nos compreendia, mesmo quando a fazíamos sofrer, mesmo quando contrariávamos a sua vontade e os seus sonhos. Nós não somos uma sagrada família, longe disso, mas Ela é sagrada para a nossa família.
No Evangelho de hoje, Maria vira-se aflita, triste e até zangada para o seu filho fugidio e pergunta-lhe: "Filho, porque procedeste assim connosco?" A nossa mãe quantas vezes o disse a cada um de nós? E disse-o na primeira pessoa do singular porque nos ergueu só e corajosamente singular. Quantas vezes nos vem à memória as muitas vezes que a fizemos chorar solitariamente e sofrer com uma dignidade típica das mães? E melhor: quantas vezes a vimos e a vemos a reerguer-se quando já ninguém esperava e confiava na sua força, na sua capacidade de erguer a cabeça diante da sociedade, quando já ninguém suspeitava que tivesse lucidez e vontade para voltar a começar. Neste último ano, observamos como ela consegue viver diariamente sozinha, pela primeira vez em quase 40 anos, e, surpresa, consegue-o com uma garra, uma vontade e uma profunda confiança em si e na nossa companhia, reagindo vigorosamente às contrariedades.
E nesta solidão percebo o Evangelho quando diz que Maria "guardava todos estes acontecimentos no seu coração": assim vejo a minha mãe, no entardecer dos dias, por vezes suspirando por um mero telefonema dos filhos, a recordar (trazer ao coração) como era cada um de nós ao seu colo, como reagia cada um de nós ao seu chamar, como tudo começou, como nos criou a todos, trazendo à memória centenas de histórias em que partilhamos protagonismo com ela e como chegou agora a um tempo em que parece que é ela que está dependente dos filhos. Mas não. Cada dia que passa, mais te queremos agarrar, proteger, fazer parar o passar inexorável do tempo porque sentimos e sabemos que somos nós que não sabemos viver sem ti. Não te esqueças, quando nasci já tu vivias há muito. E vivias sem nenhum de nós. Nós é que não sabemos viver sem uma mãe. Nunca assim vivemos. E, quando um dia aprendermos a viver sem ti, foi sempre graças a tudo o que nos ensinaste.
Por tudo isto, estás e estarás sempre de parabéns.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Dia de Natal 2009

No coração do mundo como um fogo. No íntimo de cada um de nós em favor de todos. Um Significativo dia de Natal para todos.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Natal 2009
Eis chegada a hora de Maria e de José. Em obediência à vontade imperial de ver inscritos todos os súbitos, Maria e José vão proporcionar todas as condições possíveis para que Deus inscreve-se para sempre a sua decisiva marca na história. Quando o imperador espalhava a sua pax romana assente na força, no domínio, no poder, eis que Deus sorrateiramente propõe, por Maria e José, a sua forma de construir a paz. Na obscuridade da noite judia, longe das cidades onde as luzes humanas dispensam a luz interior e abafam convenientemente todos incómodos choros infantis, Deus aproximou-se dos pobres e cercou-os de luz ("O Anjo do Senhor aproximou-se dos pastores e a glória do Senhor cercou-os de luz"), graças a Maria e José. Graças a estes dois loucos de amor e de fé um pelo outro eis que Deus nos diz como andamos enganados: não, não sou um Senhor, mas um menino; não, não quero temor, mas carinho; não, não me ergo sobre o Homem, mas dele necessito para me tornar realidade vivente no mundo; não, não nego a humanidade, mas sou humanidade e o caminho para Deus é a humanidade.Nesta noite, não estamos de esperanças, somos a esperança porque Deus oferece ao Homem o único caminho para a paz, para a luz, para uma nova história com sentido. Só depende de nós, de cada um de nós que Ele nasça hoje e sempre à nossa mesa, no nosso lar, no nosso trabalho, na nossa terra, na nossa paróquia, na nossa oração, na nossa vida. Este é o meu lema para esta noite: Ele precisa de ti para nascer Hoje. Dores? Sacrifícios? Lágrimas? Stress? Tudo isto são dores de parto que antecedem a alegria de erguer nos braços a razão e o sentido das nossa decisões, dos nossos passos, do nosso amor, do nosso viver.
Um santo Natal para todos os que daqui se abeiram. Deixem-se cercar e cerquem os outros daquela Luz.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Gestos
Finalmente me abeiro desta janela sobre os dias. Foram dez intensos dias que apanharam toda a terceira semana de advento (Gestos) e o início desta quarta semana de advento que amanhã, pela meia-noite, se encerrará com a celebração do nascimento de Jesus. Foram dias carregados de reuniões de avaliação (bons resultados os dos meus alunos. A maioria está de parabéns à minha disciplina e às outras) e, principalmente de gestos manifestadores daquela presença tão viva como tão discreta do amor encarnado do nosso Deus, Jesus. É da enumeração desses gestos que caíram tão fundo e tão fertilmente na minha vida que constará este post.
Na segunda-feira, dia catorze de Dezembro, começamos as orações de advento para os alunos do segundo, terceiro ciclos e secundário na capela de colégio. Sobre o lema Estar de Esperanças, cada turma, na hora lectiva de EMRC, sentou-se no chão, leu a Palavra de Deus, rezou com Santo Anselmo e S. Tomás de Aquino e reflectiu sobre o tesouro que trazem em si, para salvação do mundo. Foram momentos emocionantes, íntimos e reveladores que as novas gerações não estão tão insensíveis às vozes do espírito (sempre o soube, o disse e assim agi). Foram os seus gestos comprometidos que me encheram de esperança. Obrigado alunos de EMRC.
Na terça-feira seguinte não esqueço o gesto do aluno Luís Costa, que faz parte do grupo que prepara no colégio o encontro ibérico de Taizé, que me deu generosamente e mal me conhecendo, a ouvir (ainda não parei, desde então) o novo cd dos Muse, The Resistance, de que brevemente aqui terei que falar. Foi um gesto gratuito que me encheu de admiração. Obrigado Luís.
Na quarta-feira vivi esse momento anual inesquecível e carregado de história(s) que é a ceia de natal dos estagiários de Santo Tirso, presidida por essa figura inigualável (um pai para mim) que é o Padre Celestino Ramos. Mas essa noite ficará marcada para sempre pelas palavras que o meu amigo padre José Nuno, dedicado e magnífico capelão do hospital de S. João, me presenteou num livro em que faz o seu testemunho sacerdotal. Escreveu ele: Fernando Mota, a vida muda-nos, mas o essencial permanece. Não consigo dizer muito mais, apenas que este gesto de comunhão me encheu de grato orgulho por partilhar, com tão grande fé e ministério, o essencial. Obrigado Nuno.
Na quinta-feira, como sempre neste primeiro período, pelas 8,10h lá me dirigi para a capela do colégio para rezar as Laudes com os alunos que assim o desejem (são sempre mais de duas dezenas deles). Para minha surpresa, tinham organizado o espaço e a oração de maneira diferente, significando assim as nossas últimas Laudes em conjunto de 2009. Tudo por sua livre iniciativa. Devia-lhes ter aberto o meu coração e agradecer-lhes o serem meus companheiros de caminho. Não consegui, mas daqui lhes digo: esse vosso gesto de fidelidade e compromisso rejuvenesce a minha resposta diária ao Pai. Obrigado companheiros de oração.
Ainda nesse dia, o meu grande amigo José Rui ofereceu-me um lindíssimo presépio e um fortíssimo abraço tão sentidos que só fui capaz de suster as lágrimas porque este gesto de amizade profunda me encheu de um sentimento de gratidão tão grande como de tão consciente indignidade da minha parte por ser alvo de tanto. Obrigado José.
Na sexta celebramos a Eucaristia com os alunos do segundo ciclo: simples, mas participado; ritual, mas significativo; uma aposta ganha pelo entusiasmo criado em todos. Ainda na sexta e no sábado, por entre reuniões de avaliação, foi-se solidificando um sentimento de que falarei daqui a pouco.
No domingo, a minha mãe convidou-me para almoçar e de tarde fomos, com os meus tios Luís e Té, à Casa da Música ver o concerto de Natal da Orquestra Barroca e do Coro da Casa da Música que interpretaram temas de Purcell e o Dixit de Haedel. Foram mútuos gestos de carinho familiar que me enchem de segurança e felicidade. Obrigado a todos.
Ontem, fui o debutante da ceia de Natal do Colégio. Ao longo do dia fui sendo presenteado por colegas que vencendo a minha timidez e o desconhecimento de quem sou, sem nada perguntarem e nada esperarem, me acolheram como um com eles. E esse foi o grande gesto que fui sentindo ao longo destes dias e que ontem se ergueu festivamente, na referida ceia: ser acolhido. Quem não gosta de ser acolhido? Reconhecido? Reabilitado? Foram palavras, sorrisos, gestos, pequenas lembranças, trabalho, alimento e bebida partilhados que me encheram de uma vontade tão indomável como inexprimível de os abraçar a todos e a cada um com um pobre, mas sentido obrigado. Só quem já esteve por terra compreenderá o valor de uma mão estendida...
Caro leitor, se aguentou heroicamente até aqui, compreenderá facilmente donde me vem a confiança tão enraizada de que o Senhor vem todos os dias pelos gestos humanos dos outros. Neste final de advento presenteado por tantos e tão diferentes só posso erguer os braços para o Pai e balbuciar-lhe: Tudo é dom teu.
Na segunda-feira, dia catorze de Dezembro, começamos as orações de advento para os alunos do segundo, terceiro ciclos e secundário na capela de colégio. Sobre o lema Estar de Esperanças, cada turma, na hora lectiva de EMRC, sentou-se no chão, leu a Palavra de Deus, rezou com Santo Anselmo e S. Tomás de Aquino e reflectiu sobre o tesouro que trazem em si, para salvação do mundo. Foram momentos emocionantes, íntimos e reveladores que as novas gerações não estão tão insensíveis às vozes do espírito (sempre o soube, o disse e assim agi). Foram os seus gestos comprometidos que me encheram de esperança. Obrigado alunos de EMRC.
Na terça-feira seguinte não esqueço o gesto do aluno Luís Costa, que faz parte do grupo que prepara no colégio o encontro ibérico de Taizé, que me deu generosamente e mal me conhecendo, a ouvir (ainda não parei, desde então) o novo cd dos Muse, The Resistance, de que brevemente aqui terei que falar. Foi um gesto gratuito que me encheu de admiração. Obrigado Luís.
Na quarta-feira vivi esse momento anual inesquecível e carregado de história(s) que é a ceia de natal dos estagiários de Santo Tirso, presidida por essa figura inigualável (um pai para mim) que é o Padre Celestino Ramos. Mas essa noite ficará marcada para sempre pelas palavras que o meu amigo padre José Nuno, dedicado e magnífico capelão do hospital de S. João, me presenteou num livro em que faz o seu testemunho sacerdotal. Escreveu ele: Fernando Mota, a vida muda-nos, mas o essencial permanece. Não consigo dizer muito mais, apenas que este gesto de comunhão me encheu de grato orgulho por partilhar, com tão grande fé e ministério, o essencial. Obrigado Nuno.
Na quinta-feira, como sempre neste primeiro período, pelas 8,10h lá me dirigi para a capela do colégio para rezar as Laudes com os alunos que assim o desejem (são sempre mais de duas dezenas deles). Para minha surpresa, tinham organizado o espaço e a oração de maneira diferente, significando assim as nossas últimas Laudes em conjunto de 2009. Tudo por sua livre iniciativa. Devia-lhes ter aberto o meu coração e agradecer-lhes o serem meus companheiros de caminho. Não consegui, mas daqui lhes digo: esse vosso gesto de fidelidade e compromisso rejuvenesce a minha resposta diária ao Pai. Obrigado companheiros de oração.
Ainda nesse dia, o meu grande amigo José Rui ofereceu-me um lindíssimo presépio e um fortíssimo abraço tão sentidos que só fui capaz de suster as lágrimas porque este gesto de amizade profunda me encheu de um sentimento de gratidão tão grande como de tão consciente indignidade da minha parte por ser alvo de tanto. Obrigado José.
Na sexta celebramos a Eucaristia com os alunos do segundo ciclo: simples, mas participado; ritual, mas significativo; uma aposta ganha pelo entusiasmo criado em todos. Ainda na sexta e no sábado, por entre reuniões de avaliação, foi-se solidificando um sentimento de que falarei daqui a pouco.
No domingo, a minha mãe convidou-me para almoçar e de tarde fomos, com os meus tios Luís e Té, à Casa da Música ver o concerto de Natal da Orquestra Barroca e do Coro da Casa da Música que interpretaram temas de Purcell e o Dixit de Haedel. Foram mútuos gestos de carinho familiar que me enchem de segurança e felicidade. Obrigado a todos.
Ontem, fui o debutante da ceia de Natal do Colégio. Ao longo do dia fui sendo presenteado por colegas que vencendo a minha timidez e o desconhecimento de quem sou, sem nada perguntarem e nada esperarem, me acolheram como um com eles. E esse foi o grande gesto que fui sentindo ao longo destes dias e que ontem se ergueu festivamente, na referida ceia: ser acolhido. Quem não gosta de ser acolhido? Reconhecido? Reabilitado? Foram palavras, sorrisos, gestos, pequenas lembranças, trabalho, alimento e bebida partilhados que me encheram de uma vontade tão indomável como inexprimível de os abraçar a todos e a cada um com um pobre, mas sentido obrigado. Só quem já esteve por terra compreenderá o valor de uma mão estendida...
Caro leitor, se aguentou heroicamente até aqui, compreenderá facilmente donde me vem a confiança tão enraizada de que o Senhor vem todos os dias pelos gestos humanos dos outros. Neste final de advento presenteado por tantos e tão diferentes só posso erguer os braços para o Pai e balbuciar-lhe: Tudo é dom teu.
domingo, 20 de dezembro de 2009
4ª Semana de Advento: Ao Encontro
Neste domingo contemplamos duas mulheres de esperanças: Isabel e Maria, mas Maria é o protótipo do advento cristão. Para o perceber coloquemos estas duas mães em paralelo: uma habita uma cidade de Judá, perto da capital e do templo, a outra habita numa cidade da Galileia, mais perto dos gentios; a gravidez de uma é anunciada no templo a Zacarias, o anúncio, a Maria, é feito directamente à mãe, ainda em Nazaré; uma fica grávida e permanece recolhida em sua casa, enquanto Maria coloca-se entusiasmada e rapidamente a caminho da casa de Isabel, como quem anuncia uma grande notícia que pede generosidade. Isto é, Maria já age como um discípulo, já age como o verdadeiro discípulo de Jesus (anuncia e serve) e, por isso, será bendita porque acreditou em tudo o que lhe foi dito da parte do Senhor, diz-lhe Isabel. Aqui se encontram as atitudes básicas do advento cristão: acreditar na Palavra, esperar no Senhor e sair ao encontro do outro. É uma fé e uma esperança activas, desinstaladoras, não rotineiras, nem individualistas, nem inconsistentes, mas companheiras do Homem concreto de hoje.Nesta última semana de advento, tal como a grávida prepara, ansiosa e e entusiasmada, tudo para o primeiro encontro com o seu filho, nós somos chamados a ir ao encontro dos presépios vivos e actuais das nossas terras, aldeias, cidades, empresas, escolas, famílias, etc. A ir ao encontro do outro, que também é o que partilha a mesa da consoada connosco. E vamos para seguir o exemplo de Maria: cheia de Cristo, grávida de dias, com todos os riscos que isso implicava, bem como ir para a montanha, ela parte ao encontro do irmão e lá chegada saúda e louva a Deus. Que trajectos teremos esta semana? Caminharemos para onde? Por onde se lançarão nossos passos? E lá chegados saudaremos, abençoaremos, louvaremos e contagiaremos todos de alegria?
Estamos grávidos de Jesus. Somos seus portadores. Estamos a caminho do outro. Com ele nos sentaremos à mesa. Nascerá ele dos nossos gestos, palavras e celebrações? Como saberemos? Se saltarem à nossa volta de alegria, como João, no seio de sua mãe. Contagiemos de vida o mundo das trevas... Mas contagiemos, não con anátemas, mas com saudações abençoadamente proféticas.
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