segunda-feira, 26 de julho de 2010

Celebrei o Deus Amor

Ontem foi o baptizado da Mafalda. Foi emocionante estar deste lado com uma filha à porta da Igreja e escutar: "Mafalda é com muita alegria que a comunidade cristã te recebe. Em seu nome, eu te assiná-lo com o o sinal da cruz." Sentir que partilho com ela o maior tesouro que recebi, que cultivo e que tento preservar que é a minha fé vivida na comunhão da Igreja.
Foi uma alegria enorme celebrar este Deus que a ama muito antes que ela lhe possa corresponder.
É um impressivo e intenso sentimento olhar para a Mafalda e vê-la revestida de Cristo.
Celebramos o Deus Amor, celebramos a Igreja nossa mãe, celebramos tudo isso com os familiares de ontem e de hoje, com os amigos do passado e do presente que queremos trazer sempre no futuro. Ontem, tive presente os muitos com quem me cruzei ao longo da minha vida e todos eles farão parte da história que tenho para contar à minha filha.
Termino com algumas das palavras que ontem proferi no discurso da praxe, na nossa família:


(...)

À Mafalda não lhe peço que me realize, que me agradeça, que me siga, que me imite, que me ame. Apenas lhe peço que escute a bela história que lhe tenho para contar e de que todos vós fazeis parte. Na história que as nossas relações teceram ela encontrará todos os ingredientes para acreditar no homem, mesmo conhecendo todo o mal de que ele é capaz; para acreditar na vida, mesmo conhecendo todas as sua exigências; para acreditar no amor, mesmo conhecendo toda a morte que ele implica; para acreditar em Deus, mesmo experimentando as noites escuras da sua ausência que é presença.

(...)

Finalmente, naquela história, a Mafalda descortinará a mão, o sopro, a Palavra, o Amor, a Vida d’Aquele sem o qual nada poderia fazer. Sim gostaria muito, minha querida filha, que um dia descobrisses o tesouro que um dia, graças a todos estes que aqui estão e a muitos outros, o teu pai descobriu: Jesus. Amo-o como tento amar todos os dias a tua mãe, a minha mãe, a ti. Amo-o como acho que nunca amarei ninguém. Porque ele me ama como nunca ninguém me amará. Porque nele me entendo, me percebo, me encontro. Porque nele entendo a vida. Porque nele creio no Homem. Porque nele persevero na tribulação. Porque nele encontro alegria na esperança. Porque em ti vejo mais uma vez o seu amor por mim.

Vem Mafalda tenho uma bela história para te contar. Vem, vamos juntos – eu, a mãe e tu – continuar a escreve-la. Contamos convosco para a continuarmos a escrever.

domingo, 18 de julho de 2010

XVI Domingo do Tempo Comum

Que texto (Lc 10, 38-42) tão oportuno o de este domingo para quem, como eu, andou tão atarefado e ocupado. Que texto tão oportuno em tempo de crise social e económica tão profunda que já todos percebemos que temos que trabalhar muito mais e receber bem menos para nos aguentarmos à tona.
No entanto, Jesus recorda-nos que a questão não está no tempo que nos falta, no excesso de cargas que nos carrega a vida, nas preocupações que nos apoquentam retirando-nos serenidade, confiança e amizade. A questão que está na raiz de tudo isso é outra.
Coloquemos os olhos sobre a atarefada Marta: ela é a dona da casa ("uma mulher chamada Marta recebeu-o em sua casa"); andava distraída, absorta (melhor que o "atarefava-se" da tradução litúrgica) com o muito serviço; depois repreende Jesus ("não te importas") e dá-lhe ordens ("diz-lhe que venha ajudar-me"), sempre com um olhar enviesado sobre a irmã e o mestre que acolhera em sua casa.
Marta é o sinal de muitos de nós descentrados do essencial, desconcentrados de que estamos com..., distraídos com as atitudes dos outros, às voltas, como baratas tontas, sustentando um sistema iníquo que diz que fomos feitos para trabalhar e não para viver, esquecendo que não somos donos de nada nem de ninguém, mas hospedes da vida, da nossa vida e da vida dos outros, pessoas que devem permanentemente estar agradecidas a Deus e aos irmãos por aceitarem a nossa individualidade, por amarem as nossas fraquezas, por aceitarem partilhar os seus dias, os seus gestos, as suas palavras, a sua companhia, o seu amor connosco.
Marta não escolheu ("Maria escolheu a melhor parte"). Sim, não parou para olhar em volta, para perceber o quanto recebe (muito mais do que o que dá), não travou a tempo os seus gestos e as suas palavras para acolher e por isso virou-se contra aqueles que mais a amavam. Como o fazemos tantas vezes! Não se revoltou com os sistemas que lhe impõem acção e não reflexão, que lhe impõem ânsia de tudo ter e experimentar em vez de serenidade de muito acolher, que lhe sugam a generosidade e a capacidade de sacrifício ingredientes essenciais para o amor.
Parafraseando uma anedota judia (aquele rabino anda tão ocupado com as coisas de Deus que até se esquece que Ele existe), existem tantos pais procupados com o futuro dos filhos que até se esquecem que eles existem; existem tantos casais preocupados com as experiências novas que até se esquecem de experimentar a novidade absoluta e diária do outro; existem tantos empresários preocupados com os lucros que até se esquecem que o lucro acontece com os outros que produzem, consomem e se alimentam; existem tantos trabalhadores preocupados com o seu futuro que até se esquecem que o futuro é uma construção com os outros; existem tantos jovens em busca de liberdade que até se esquecem que ela está ao alcance da sua capacidade de conquista responsável e dialogada; existe tanta Igreja preocupada com a grandeza de Deus que se esquece que a glória de Deus é o homem.
Jesus ensina-nos a escolher a cada hora, em cada dia e diante de cada homem a melhor parte que quase nunca é a minha.

sábado, 17 de julho de 2010

De Regresso

Finalmente. Os exames terminaram ontem às 18,30h. Desde 9 de Junho realizei seis exames (o máximo permitido pela faculdade num semestre). Nesta semana fiz três de seguida com um dia de intervalo entre eles. Terminei exausto, com o corpo a doer e a cabeça a latejar. Mas terminei. As notas que vão saindo a conta-gotas são estimulantes e reconfortam todo este estudo. A licenciatura está praticamente terminada, falta Ética II que não pude realizar este ano porque não nos podemos matricular, num semestre, a mais do que seis disciplinas. Assim, no próximo ano pagarei a propina completa por uma disciplina. Enfim. Mas, já me posso candidatar ao mestrado em Ensino de Filosofia e, assim, na próxima sexta lá estarei a fazer... mais uma prova escrita de português. Espero que a minha média prejudicada pelas equivalências da licenciatura em Teologia não me impeça de começar o mestrado já este ano. Se fosse com a média que tenho das disciplinas que fiz na faculdade de letras nestes dois anos (18,33), estaria bem descansado.
Mas o que interessa é que volto a ter tempo para os meus, para o meu blogue e para ouvir música e hoje proponho algo para arrasar. Sim, é muito velhinho mas apetecia-me algo mais duro para aliviar todo este stress.
Como vale a pena o cansaço quando fazemos as coisas seriamente e com amor. Bom fim-de-semana.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Por Entre Medievais

Continuo a estudar (com muita pouca vontade) para filosofia medieval porque tenho o seu exame na segunda-feira. Quando não tenho que ir ao colégio passo o dia sozinho em casa à volta de Agostinho, Boécio, Anselmo e Tomás de Aquino e do livre arbítrio humano em conjugação com a presciência de Deus. Antes gostava muito deste silêncio, hoje sinto falta da minha Mafalda. Não posso perder o pé aos meus dias porque eles passam a correr, tal como a vida. Para ela deixo aqui este lindíssimo spot publicitário porque existir é a melhor coisa da vida. Não há crises mas oportunidades. Não posso perder esta de te ter.

Un Encuentro sobre la Felicidad, Coca-Cola from perpleja on Vimeo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Começar Bem a Semana

Têm sido dias muito intensos: reuniões de avaliação, vigilância de exames, exames na faculdade (ainda me faltam quatro), as lides domésticas e paternas e mais as habituais surpresas. Por isso, não tenho tido disponibilidade mental para aqui vir. E venho hoje porque encontrei este vídeo carregado de esperança e confiança no homem. Quando ele quer todos têm lugar e com todos aprendemos imenso. Uma boa semana. Vou tentar passar mais algumas vezes por aqui.

Imagine Glee from Daniel Reigada on Vimeo.

domingo, 20 de junho de 2010

XI Domingo do Tempo Comum

Vivemos uma época de opinião. Quase todos opinamos sobre quase tudo. Atente-se nos fóruns radiofónicos e televisivos, leia-se (para quem tiver paciência) os imensos comentários a notícias na internet, os blogues sobre tudo e mais alguma coisa, sondagens, inquéritos, tertúlias, etc. Tudo isto mostra o império da opinião, que nem sempre é o da razão.
Mas falo deste assunto porque no evangelho de hoje (Lc 9, 18-24) Jesus lança uma dupla questão que mantém hoje uma actualidade pertinente e reflexiva: "Quem dizem as multidões que eu sou? (...) E vós, quem dizeis que eu sou?". À primeira questão ainda hoje, tal como então, são muitas as opiniões sobre Jesus das mais desvairadas às mais ortodoxas, passando pelas de maior ou menor indiferença. Mas a questão decisiva é a segundo que ele lança aos seus discípulos de hoje. E aqui peço desde já calma, não respondam tão depressa, não citem qualquer fórmula que não sabem o que quer dizer nem o que implica, não tragam as respostas infantis para alegrar catequistas ou o senhores padres, não se apressem, como fez Pedro, em debitar lugares comuns ou expectativas messiânico-religiosas.
Porquê? Porque Jesus, logo a seguir à impetuosa resposta de Pedro, mais que uma opinião sobre si pretende uma vida consigo. Jesus rejeita respostas aprendidas e memorizadas (lembram-se das fórmulas na catequese?) porque dizer quem ele é, dizer o que ele significa para mim, dizer o espaço que ele ocupa na minha vida só tem uma forma de se fazer: vivendo como quem dá, como doação, como entrega, como aparente perda.
Quem quiser andar com Jesus, caminhar com ele só tem um caminho: renunciar a si próprio, tomar a cruz todos os dias e segui-lo. Isto é, amar. Sim amar porque amar é renunciar a si próprio, amar é cruz, é sacrifício, é esquecimento de si, é doação, é oblação.
A resposta do cristão à pergunta de Jesus - Quem dizes que eu sou? - não é uma questão de opinião, mas de vida vivida e implicada na resposta diária a que cada um de nós é chamado. E isto é para todos (não só para alguns iluminados ou escolhidos) e para todos os dias (não só para alguns dias de festa ou algumas horas de rito religioso).

domingo, 6 de junho de 2010

X Domingo do Tempo Comum

No evangelho de hoje (Lc 7, 11-17) vemos um encontro de dois cortejos, duas posturas diante da vida, duas formas de vivência da fé: um a sair da cidade, a esconder-se, a sair para a solidão carregando a morte e o seu peso, a sua injustiça, a sua dor, a sua tragédia; o outro está a entrar na cidade, vai ao encontro, está a entrar para o meio da existência com a Vida e a vida feita confiança, esperança, alegria. Naquele vai um filho morto, uma viúva na mais terrível das solidões e muita gente. Neste vai Jesus, os seus discípulos e uma multidão.
No encontro destes dois cortejos - um de morte e outro de vida - coloquemos os olhos na acção de Jesus e encontraremos os discípulos e a Igreja que Jesus quer. Primeiro, Jesus ao ver aquela mãe compadeceu-se, comoveu-se, as suas entranhas se moveram maternalmente, divinamente e enxugou-lhe as lágrimas com a esperança e o conforto das suas palavras ("Não chores"). Depois, fez parar aquele cortejo de ostracização, de auto-negação, de auto-isolamento, de saída da cidade, do convívio, da sociedade (os que transportavam o caixão pararam ao toque de Jesus). Finalmente, porque é a Vida, sem orações, sem gestos grandiosos, mas como Senhor ordena não a morte (porque Ele não é Senhor da morte), mas o jovem a levantar-se, isto é Jesus é o Senhor da Vida, fala com o Homem, não com forças ocultas, tem para cada homem uma palavra de Vida, de conforto, de esperança que reabilita, que faz parar a marginalização, uma palavra que edifica, integra e eleva.
Eis a Igreja e o cristão que Jesus nos desafia a ser: aquele que não sai da cidade, não transporta a morte nem mensagens de morte, não se isola, mas faz parar todo o tipo de cortejo de morte (medo, pobreza, desemprego, marginalidade, solidão, desespero, desânimo, etc) e com palavras e gestos de conforto, de forma resoluta e confiante afirma e dignifica a vida. Que afirma que Deus salva e não condena; que Deus só pode dar a vida e nunca a morte; que as palavras de Deus ressuscitam e nunca fazem perecer.

O que acabei de dizer pode parecer uma evidência, um lugar comum na vida de um cristão, o centro de qualquer discurso eclesial. Mas por vezes ainda somos infelizmente surpreendidos com discursos eclesiásticos sustentados na morte, no medo, no julgamento, no castigo. Na quinta-feira, dia de Corpo de Deus, fui à missa e "apanhei" uma primeira-comunhão. Não vou falar da celebração em si (pobre, rotineira, enfadonha...), mas das palavras da longa homilia que nem dialogada com as crianças foi. Pois o que as palavras sublinharam foi o perigo de comer indignamente o corpo de Jesus, de comungar como Judas Iscariotes o fez na última ceia, de ser traidor de Jesus. Reforçou-se tudo isto com a a extraordinária exegese de que ser traidor de Jesus nos levará a acabar como Judas "esganado" numa figueira. E, terminou-se a homilia com a "pérola" de uma Santa que, sendo mãe, disse aos seus filhos: "Prefiro ver-vos mortos que a viver em pecado mortal". Estava fechado o edifício tenebroso de um sermão (sim, teve tudo de sermão ao pior estilo medieval) inqualificável. Enfim, em plena festa para dezenas de crianças teve-se um discurso de morte, de temor, de medo, de terrorismo religioso. Onde esteve o Jesus que veio para salvar? Onde esteve um Deus de Vida? Quando pararemos com estes cortejos de morte? É também por isso, que o Evangelho de hoje é fundamental. Só espero e pedi a Deus naquela hora que nenhuma daquelas crianças tivesse escutado tanta asneira, tanto paganismo, tanta negação de Jesus.
Senhor entra na nossa cidade e pára tanto cortejo de morte fora e dentro da tua Igreja.