No entanto, Jesus recorda-nos que a questão não está no tempo que nos falta, no excesso de cargas que nos carrega a vida, nas preocupações que nos apoquentam retirando-nos serenidade, confiança e amizade. A questão que está na raiz de tudo isso é outra.
Coloquemos os olhos sobre a atarefada Marta: ela é a dona da casa ("uma mulher chamada Marta recebeu-o em sua casa"); andava distraída, absorta (melhor que o "atarefava-se" da tradução litúrgica) com o muito serviço; depois repreende Jesus ("não te importas") e dá-lhe ordens ("diz-lhe que venha ajudar-me"), sempre com um olhar enviesado sobre a irmã e o mestre que acolhera em sua casa.
Marta é o sinal de muitos de nós descentrados do essencial, desconcentrados de que estamos com..., distraídos com as atitudes dos outros, às voltas, como baratas tontas, sustentando um sistema iníquo que diz que fomos feitos para trabalhar e não para viver, esquecendo que não somos donos de nada nem de ninguém, mas hospedes da vida, da nossa vida e da vida dos outros, pessoas que devem permanentemente estar agradecidas a Deus e aos irmãos por aceitarem a nossa individualidade, por amarem as nossas fraquezas, por aceitarem partilhar os seus dias, os seus gestos, as suas palavras, a sua companhia, o seu amor connosco.
Marta não escolheu ("Maria escolheu a melhor parte"). Sim, não parou para olhar em volta, para perceber o quanto recebe (muito mais do que o que dá), não travou a tempo os seus gestos e as suas palavras para acolher e por isso virou-se contra aqueles que mais a amavam. Como o fazemos tantas vezes! Não se revoltou com os sistemas que lhe impõem acção e não reflexão, que lhe impõem ânsia de tudo ter e experimentar em vez de serenidade de muito acolher, que lhe sugam a generosidade e a capacidade de sacrifício ingredientes essenciais para o amor.
Parafraseando uma anedota judia (aquele rabino anda tão ocupado com as coisas de Deus que até se esquece que Ele existe), existem tantos pais procupados com o futuro dos filhos que até se esquecem que eles existem; existem tantos casais preocupados com as experiências novas que até se esquecem de experimentar a novidade absoluta e diária do outro; existem tantos empresários preocupados com os lucros que até se esquecem que o lucro acontece com os outros que produzem, consomem e se alimentam; existem tantos trabalhadores preocupados com o seu futuro que até se esquecem que o futuro é uma construção com os outros; existem tantos jovens em busca de liberdade que até se esquecem que ela está ao alcance da sua capacidade de conquista responsável e dialogada; existe tanta Igreja preocupada com a grandeza de Deus que se esquece que a glória de Deus é o homem.
Jesus ensina-nos a escolher a cada hora, em cada dia e diante de cada homem a melhor parte que quase nunca é a minha.


