Num rápido intervalo do estudo de filosofia da linguagem um post, mais uma vez inspirado numa música escutada na rádio, ontem, preso no trânsito do Porto: Estou Além de António Variações.
É uma música onde se expõe a tensão magnífica e tremenda da condição humana. A insatisfação permanente é causa de progresso, de desenvolvimento e procura de novos mundos e diferentes conhecimentos, de algo que nos preencha e que alimente a procura da verdade, da paz, de um espaço que nos complete e realize. Mas, também pode ser causa de ansiedade, de pressa, de fuga, de alienação, da condição vazia e paroxística de tantos dos nossos contemporâneos.
Enfim, viver é sempre caminhar à beira do abismo do vazio ou do sentido. Mas é sempre caminhar...
Aqui fica a versão incontornável dos Humanos.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Semana de Oração Pela Unidade dos Cristãos VI
Termina hoje a semana de oração pela unidade dos cristãos e, assim, coloco aqui o meu último post sobre o assunto.Apresento o texto de opinião que D. Carlos de Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, publicou, na passada sexta, no Correio da Manhã. É com muito gosto que o faço porque conheço muito bem D. Carlos: foi meu directo espiritual no seminário e fora dele, foi meu professor, foi meu encenador em várias peças de teatro e, principalmente, apesar do tempo, da distância e das voltas da vida, é meu amigo. Com ele cresci muito, aprendi imenso e enraizei a minha fé.
O que me atrai no texto que aqui vou colocar é que ele toca, nesta altura da caminhada ecuménica, naquilo que me parece ser essencial: há que passar da fase do diálogo a uma outra, ainda que não saibamos bem qual. Só assim o diálogo não se transformará em imobilismo. Na verdade, o que se sente hoje é que é necessário dar um outro passo ou passos que aprofunde a comunhão e potencie a unidade, que não é, nem nunca queremos que seja, unicidade. Aqui ficam a lucidez e a oportunidade das palavras de D. Carlos. Parabéns amigo.
A semana da oração pela unidade dos cristãos, que termina a 25, é momento para reconhecer os passos dados no ecumenismo, ou seja, no esforço para encontrar meios e modos, atitudes e gestos que encaminhem para refazer os desencontros e as separações mais duras e importantes como a que originou os ortodoxos, no século XI, e a do protestantismo, ao longo do século XVI, com sucessivas cisões. Passo a passo, como todos os caminhos, requer paciência. As etapas intermédias são fundamentais: já se passou do anátema ao diálogo; do diálogo está a passar-se ao acolhimento e do acolhimento passaremos ao reconhecimento recíproco.
Podemos enumerar os principais frutos. Em primeiro lugar dissiparam-se inúmeros preconceitos e favoreceu-se a compreensão verdadeira, não facciosa, ou astuciosa ou polémica. O segundo fruto é ter mantido a possível compatibilidade de doutrinas que no passado eram apresentadas e vividas unicamente como antagonistas e alternativas. O terceiro é ter clarificado o núcleo irredutível de diversidades reais ou também divergências que não podem ser harmonizadas nem podem ser simplesmente consideradas complementares. A estação do diálogo deu o que podia dar e importa continuá-la sem a prolongar até ao infinito, iludindo os empenhos ulteriores. O diálogo pode tornar-se uma máscara do imobilismo das igrejas.
Perante a persistência das divisões entre as igrejas, admite-se não ter soluções simples a propor. Não há euforia ecuménica. A visão cristã da reconciliação deve empenhar todos os cristãos a procurar entre eles "incansavelmente" a unidade visível. Para isso será necessário "reexaminar as decisões", perguntando se elas não são produto de diferenças que noutros tempos foram consideradas fonte de divisão, mas hoje podem aparecer como um enriquecimento.
Além disso, os cristãos são chamados a dar passos: 1) Para avançar na unidade e chegar à comunhão é fundamental curar as feridas da memória, sobretudo com factos. 2) Favorecer a colaboração em todos os campos, evitando a rivalidade que destrói já que a construção de justiça social para com os pobres, os doentes, os marginalizados, os mais débeis e pequenos é a verdade da caridade. 3) Afirmar a igualdade de estatuto e de direitos das igrejas e dos povos minoritários. 4) Empenhamento comum pelo conhecimento sempre mais aprofundado da Bíblia. É esta palavra de Deus e o Seu Espírito que guiarão as igrejas para a comunhão.
O ecumenismo pede um novo arranque com a coragem da fé, uma vez que o olhar da esperança já abraça novo tempo.
domingo, 24 de janeiro de 2010
III Domingo do Tempo Comum
O Evangelho deste domingo divide-se em duas partes bem definidas, nas quais são apresentados dois objectivos: o de Lucas ao escrever o seu Evangelho e o da vida de Jesus. É sobre este último que vamos desenvolver a nossa reflexão de hoje.Jesus solenemente, na sua terra e na sinagoga (portanto, no cerne da sua história, inserido no seu contexto cultural e humano), a partir da Palavra de Deus, entende, assume e apresenta aos seus o seu programa de vida. Depois do baptismo, onde Ele se sente chamado pelo Pai (vocação); depois das tentações no deserto, onde Ele sente a precariedade da natureza e da vontade humana, mas onde renova a sua vocação; agora, em Nazaré, pela leitura da Palavra de Deus, entende, assume e apresenta as linhas programáticas da vontade do Pai. Sabe que o Espírito de que se sente portador, não é para si nem para a solidão, mas impele-O ao encontro do outro com duas acções (dois verbos) fundamentais: evangelizar (dar uma boa notícia) e libertar.
E toda esta acção terá uma descriminação positiva, isto é Deus não é neutral diante do mundo porque opta preferencialmente pelo pobre. A Sua justiça faz-se porque Ele olha para o Homem, para o pobre, para o cativo, para o cego, para o oprimido e não olha para o pecado. O primeiro olhar de Deus é o homem, é o sofrimento que arruína a sua vida, é a opressão de que padece a humanidade.
Jesus é enviado com uma boa notícia: Deus é aliado do homem e não seu carrasco; Deus é boa-notícia e não big-brother vigilante; Deus é liberdade e não manipulação; Deus é visão e não areia lançada aos olhos para ocultar medrosamente a verdade; Deus é graça, gratuidade, dom amoroso e não comércio nem inveja nem ciúme. Não foi por acaso que Jesus tomou a liberdade de omitir a última parte da leitura de Isaías, que diz que o Senhor enviou o seu profeta a proclamar "o dia da vingança da parte do nosso Deus". (Is 61, 2b), porque a vingança não é definitivamente palavra do dicionário divino.
Não percebo porque perdemos tanto tempo em grandes programações pastorais. Esta continua bem actual e por concretizar. Somos ungidos para anunciar BOAS novas, notícias geradoras de esperança; somos ungidos a LIBERTAR não a carregar nem a hostilizar quem está cativo de tantas espécies de cadeias; somos ungidos a dar um OLHAR profundo e aberto, racional e humilde, credível e fraterno aos tantos cegos pela sociedade, pelo fundamentalismo, pelo preconceito, por uma religiosidade mal entendida e formada; somos ungidos a proclamar e a erguer um mundo da graça de Deus onde a descriminação seja a divina: primeiro os pobres, primeiro os esquecidos, primeiro toda a humanidade.
Um programa arrojado? Sem dúvida, é o programa de Cristo. Para quando o dos cristãos e das nossas comunidades?
sábado, 23 de janeiro de 2010
Semana de Oração Pela Unidade dos Cristãos V
A aproximação do próximo exame - e que exame - a Filosofia da Linguagem (matéria bem difícil) não me permitiu deixar aqui, ontem, o penúltimo texto sobre o ecumenismo.Hoje recordarei a figura impressionante de João Paulo II, o papa que mais fez pelo reconhecimento das culpas da igreja romana e que deu o passo mais audaz ao pedir perdão pelos pecados dessa igreja ao longo da história no início da quaresma do ano jubilar de 2000. Seria fastidioso elencar aqui todos os seus gestos e todas as sua palavras pelo aprofundamento ecuménico. Recordarei somente três momentos e um pequeno discurso.
O primeiro momento é bem significativo dos obstáculos por que todo este movimento vai passando. Em Junho de 1989, o papa participou num encontro de oração, na catedral luterana de Roskilde, na Dinamarca, mas não lhe foi concedido o uso da palavra com a justificação a sair da boca do bispo luterano, Bertil Wiberg: "Não queremos que, ouvindo-o falar na igreja, alguns possam acreditar que João Paulo II seja também o nosso pontífice. O papa é bem-vindo, mas é bom frisar que somos nós que o estamos a receber e não ele a nós".
Nessa mesma viagem, já na Suécia, na igreja luterana em que o já aqui referido pai do movimento ecuménico, Nathan Soderblom, iniciara aquele movimento, o bispo luterano Bertil Werstrom abraça o papa e diz: "Naquele dia o apóstolo João era representado aqui pelo bispo ortodoxo; o apóstolo Paulo, pelo bispo luterano. Faltava o apóstolo Pedro. Hoje, também Pedro está aqui e chama-se João Paulo II". Wojtyla deposita um ramo de flores no túmulo de Soderblom e diz que está ali "em espírito de penitência" e faz um convite ao perdão mútuo.
Finalmente, em 1995, na Eslováquia aquando da beatificação de três mártires católicos condenados à morte pelas autoridades protestantes em 1619, o papa lembra na sua homilia os vinte e quatro evangélicos mortos pelos católicos, em 1687. Mas aquelas palavras são coroadas pelo papa que, quebrando o protocolo e inesperadamente, pede para parar o carro junto ao monumento dos referidos mártires calvinistas onde, debaixo de chuva, ora de pé e em silêncio. O bispo luterano, a quem João Paulo convida a rezar ali mesmo um Pai Nosso, dirá mais tarde ao jornalistas: "Jamais havíamos pensado que algo semelhante pudesse acontecer".
Finalmente e sem mais comentários deixo as palavras do papa na encíclica Ut unum sint em 1995:
"Deste modo, a Igreja Católica afirma que, ao longo dos dois mil anos da sua história, foi conservada na unidade com todos os bens que Deus quer dotar a sua Igreja, e isto apesar das crises, por vezes graves, que a abalaram, as faltas de fidelidade de alguns dos seus ministros, e os erros que diariamente investem os seus membros. A Igreja Católica sabe que, graças ao apoio que lhe vem do Espírito Santo, as fraquezas, as mediocridades, os pecados, e às vezes as traições de alguns dos seus filhos, não podem destruir aquilo que Deus nela infundiu tendo em vista o seu desígnio de graça. E até « as portas do inferno nada poderão contra ela » (Mt 16, 18). Contudo, a Igreja Católica não esquece que, no seu seio, muitos eclipsam o desígnio de Deus. Ao evocar a divisão dos cristãos, o Decreto sobre o ecumenismo não ignora « a culpa dos homens dum e doutro lado".
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Semana de Oração Pela Unidade dos Cristãos IV
Com Paulo VI e com os textos ecuménicos do Vaticano II o diálogo entre as diferentes confissões cristãs sai reforçado e motivado. Sucederam-se os gestos carregados de simbolismo do papa Montini, principalmente com os irmãos ortodoxos, para os quais o papa se virou com uma profunda e sincera vontade de diálogo. São dois os gestos mais significativos. Em 6 de Janeiro, na cidade santa de Jerusalám, Paulo VI dá o beijo da paz ao patriarca Atenágoras. E, em 14 de Dezembro de 1975 (no décimo aniversário da reconciliação com Constantinopla), em plena Basílica de S. Pedro, Paulo VI, vestido com os paramentos litúrgicos, beija os pés do metropolita Melitone, o enviado do patriarca de Constantinopla, reparando assim o gesto do papa Eugénio IV que, no concílio de Ferrara-Florença (1431-1445), em nome de unificação das igrejas ocidental e oriental, obrigara o patriarca José II a beijar-lhe os pés.O texto que hoje deixo aqui foi proferido por Paulo VI diante do Concílio, em 7 de Outubro de 1965, por altura da abolição recíproca das excomunhões de 1054 entre a igreja romana e a igreja oriental.
Afirmamos diante dos bispos reunidos em Concílio Ecuménico Vaticano II, sentir viva dor pelas palavras ditas e pelos gestos feitos naquele tempo e que não podem ser aprovados. Desejamos, além do mais, remover e banir da memória da Igreja, considerar completamente sepultada no esquecimento, a sentença de excomunhão imposta naquela época.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Semana de Oração Pela Unidade dos Cristãos III
O papa João XXIII é uma figura decisiva e programática da igreja católica; é uma daquelas manifestações do Espírito tão notável e tão notória que faz qualquer católico sentir-se reconfirmado na sua convicção de que o Espírito (também) conduz a sua igreja.João XXIII integra, finalmente, a igreja católica no movimento ecuménico criando o Secretariado para a União dos Cristãos (1960) e, principalmente, convidando os irmãos separados a serem observadores nos trabalhos do concílio Vaticano II. Concílio que dedicaria às igrejas irmãs um documento incontornável e inédito na igreja católica.
Deixo aqui um diálogo de João XXIII com Roger Schutz (fundador da comunidade ecuménica de Taizé) pouco antes de morrer. Respondendo à pergunta de Roger, «Que testamento nos deixa para Taizé?», o papa Roncalli dirá: «Não andemos à procura de quem errou e de quem tem razão, mas vamos reconciliar-nos (...) Vós estais na Igreja. Ficai em paz». E vendo que Roger insistia dizendo: «Mas então somos católicos!», João XXIII disse-lhe: «Sim, já não estamos separados».
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Semana de Oração Pela Unidade dos Cristãos II
Nesta semana de oração pela unidade dos cristãos vou colocando aqui alguns textos significativos que desencadearam e aprofundaram a necessidade de tudo se fazer para colocar em prática a oração de Jesus: "para que sejam um só, como Nós somos" Jo 17, 11.
É de justiça referir que os pioneiros do movimento ecuménico foram os nossos irmãos protestantes. Por várias vezes eles convidaram os católicos a participarem em conferências, com as diferentes igrejas, para reflectirem e aprofundarem o movimento ecuménico. Como, por exemplo, para as de Estocolmo (1925) e de Lausanne (1927), mas os católicos recusaram sempre estar presentes. Ainda por cima, Pio XI, publicaria em 1928 uma encíclica em que manifesta a sua suspeita sobre aquele movimento e reafirma a doutrina tradicional, que basicamente consistia em culpar os outros pela divisão. João Paulo II homenageou aqueles pioneiros ecuménicos nas suas viagens à Suécia (país do bispo luterano Soderblom, que intercedeu imenso junto dos católicos pela sua participação no movimento) e à Escócia (lugar de um dos primeiros encontros entre igrejas cristãs - sem a católica - realizado em 1910).
Das muitas declarações significativas que aqueles encontros produziram transcrevo hoje uma que, pela sua concisão e pela sua assumpção de culpa, penso ser significativa. Foi produzida em Amesterdão em1948, no primeiro Conselho Ecuménico das Igrejas, ainda com a ausência da igreja romana. Eis o pequeno texto:
Somos Igrejas Cristãs que desde há muito não são compreendidas, são ignoradas e desfiguradas de modo recíproco; somos de países que por repetidas vezes estivaram em guerra, somos todos pecadores e herdeiros dos pecados dos nossos pais. Nós não estamos a corresponder à bênção que Deus nos deu.
É de justiça referir que os pioneiros do movimento ecuménico foram os nossos irmãos protestantes. Por várias vezes eles convidaram os católicos a participarem em conferências, com as diferentes igrejas, para reflectirem e aprofundarem o movimento ecuménico. Como, por exemplo, para as de Estocolmo (1925) e de Lausanne (1927), mas os católicos recusaram sempre estar presentes. Ainda por cima, Pio XI, publicaria em 1928 uma encíclica em que manifesta a sua suspeita sobre aquele movimento e reafirma a doutrina tradicional, que basicamente consistia em culpar os outros pela divisão. João Paulo II homenageou aqueles pioneiros ecuménicos nas suas viagens à Suécia (país do bispo luterano Soderblom, que intercedeu imenso junto dos católicos pela sua participação no movimento) e à Escócia (lugar de um dos primeiros encontros entre igrejas cristãs - sem a católica - realizado em 1910).
Das muitas declarações significativas que aqueles encontros produziram transcrevo hoje uma que, pela sua concisão e pela sua assumpção de culpa, penso ser significativa. Foi produzida em Amesterdão em1948, no primeiro Conselho Ecuménico das Igrejas, ainda com a ausência da igreja romana. Eis o pequeno texto:
Somos Igrejas Cristãs que desde há muito não são compreendidas, são ignoradas e desfiguradas de modo recíproco; somos de países que por repetidas vezes estivaram em guerra, somos todos pecadores e herdeiros dos pecados dos nossos pais. Nós não estamos a corresponder à bênção que Deus nos deu.
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