sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Falta de Tempo

Que semana tremenda está a chegar ao fim! As reuniões intercalares tiraram-me tempo para a unidade lectiva sobre a Igreja, que tenho que escrever para os manuais de EMRC, e, principalmente, para o curso e as aulas de filosofia. Acabei de passar os apontamentos da aula, de quarta-feira, de filosofia da linguagem e não tenho dúvida que perder uma sessão, por semana, desta disciplina limita o meu entendimento sobre ela e obriga-me a estudar para passar, o que me deprime.
Foi uma semana em que mal tive tempo de me sentar em frente do meu computador, do mundo, de mim próprio. Mas encontro sempre espaço para um amigo. Assim, hoje de manhã, passei algumas horas com a minha amiga Salete e partilhei fascinado e comovido da sua alegria. Há muito que não estávamos juntos e senti que ambos saímos enriquecidos da arte de cultivar a amizade e de aprofundar a fé que partilhamos e reforçamos mutuamente.
Estou cansado e entristecido por não ter avançado no meu trabalho (uma semana ocupada, mas muito pouco produtiva), mas estou realizado porque O sinto, na aparente ausência, cada vez mais perto. E cada vez mais perto no outro que reencontro ou com quem partilho os dias.
Despeço-me com uma oração de Tagore que o Jorge colocou no seu blog e que encerra plenamente esta semana:

Não ouviste os seus passos silenciosos?
Ele vem, vem, vem sempre,
em cada instante e em cada idade,
todos os dias e todas as noites.
Ele vem, vem, vem sempre,
nos dias esplêndidos do ensolarado Julho,
como na obscura angústia humedecida das noites de Janeiro.
Ele vem, vem, vem sempre.

domingo, 1 de novembro de 2009

Todos os Santos

Este dia em que milhares de pessoas enchem os cemitérios foi sempre para mim um dia muito estranho, principalmente quando comecei a trabalhar nas paróquias por onde passei. Até então era uma dia de missa como o domingo, mas em que o cemitério não era um espaço que a nossa família, mais próxima ou mais alargada, frequentasse, mesmo depois da morte dos meus avós paternos e maternos. Não se pense que já alimentavamos o actual tabu da morte, pois quando os meus avós faleceram as crianças da casa (eu, as minhas irmãs e os meus primos, e depois o meu irmão) lá estivemos na câmara ardente, na missa de corpo presente, no beijo de despedida ao avô ou à avó, na procissão até à Igreja (os meus avós paternos tiveram em câmara ardente na sua casa) e junto ao jazigo onde foram sepultados. Nunca nos esconderam a verdade da vida que é a morte, nunca nos "douraram a pílula" sobre a violência , a dor e a esperança que a morte encerra. E quando o primeiro avô faleceu eu tinha seis anos, a João quatro e a Inês dois anos... Não me esqueço que quando a minha mãe recebeu a notícia de que o meu avô paterno tinha falecido (o primeiro a partir), chamou-nos aos três e de joelhos rezamos ao Sagrado Coração de Jesus: Deus sabe como rezei tão convictamente de que estava a ser escutado e de acreditar que o avô já estava junto do Jesus. Talvez por isso e porque nascemos e crescemos ancorados a uma profunda, sólida e provada confiança na ressurreição de Jesus sempre olhamos este dia como uma celebração da vida e não como uma corrida desenfreada aos cemitérios, lugares de morte e que nada acrescentam à nossa mais profunda convicção: que aqueles que partiram e nos deixaram um profundo sentimento de solidão estão vivos junto do Pai, tal como Jesus, e em íntima união connosco.
Neste tempo em que de todos se esconde a morte, em que se evita que uma criança presencie a morte, em que se chamam psicólogos para aliviar a dor da morte, em que se morre longe da sua casa e dos seus (por vezes, na mais desumana das solidões), em que sempre que se fala de tal, lá se escuta: ah não, por favor falemos de outra coisa. Que horror! Ora, a verdade é que a morte confronta o homem com o nada, o vazio, a questão do sentido. Confronta o homem com a verdade. Na verdade, a morte não mente. Quem mente são os tempos que vivemos, cheios de avanços técnicos, cheios de conhecimento, cheios de poder, mas que têm medo de enfrentar a verdade e enganam-se e enganam. Se a morte voltasse serenamente (não para aterrorizar, mas para construir a esperança) ao pensamento do homem, ela levar-nos-ia à conversão e à transformação do mundo. Assim, como estamos, apenas queremos viver o mais possível, acumular o máximo, ter as maiores e mais originais experiências, mas esquecemos o outro de tão ocupados que estamos em viver a nossa vidinha individualista e fechada sobre si própria. E esquecemos de pensar o sentido de tudo isto.
Por isso, hoje não fui nem vou a nenhum cemitério, mas vou receber na minha casa a minha família para celebrar a vida, recordar os que amamos e que nos amam e que já não partilham o caminho connosco, e beberemos um bom copo de vinho, celebrativo e meditativo, porque sabemos que a morte é dura e dolorosa, mas acreditamos que é apenas a curva do caminho em que deixamos de ver os que vão à nossa frente e em que, os que nos seguem, nos deixam de enxergar. Não, não vou ao cemitério porque lá não está ninguém. Aqui, sentado diante do meu computador, sinto o olhar silencioso do meu avô Guilhermino, o sorriso contagiante da minha avó Rosa, a bondade do meu avô Marques, a fé sofrida da minha avó Glória, a admiração que o meu tio António me devotava. Todos eles estão vivos e rezam por mim, por nós. A eles, os santos de Deus que hoje celebramos, o meu obrigado...

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Incompreensível

No início da semana fomos surpreendidos pela detenção, para apresentação a um juiz, do pároco de Boticas por uma alegada participação num esquema de tráfico de armas. A questão da justiça deixo-a à justiça e espero que tudo se averigúe e se esclareça nos lugares próprios que são os tribunais.
O que é verdadeiramente incompreensível é que este sacerdote católico não só tenha em casa um verdadeira arsenal de armamento ilegal e com os números de série apagados, mas também se dedique a emprestar dinheiro com 4% de juros, a negócios imobiliários e à compra e venda de automóveis. O que é incompreensível é que tal fosse do conhecimento dos colegas e da hierarquia e nada tivesse sido feito. O que é incompreensível é que este homem tivesse regressado às suas paróquias e se prepare para celebrar as eucaristias deste fim-de-semana.
Poderão dizer-me que o senhor podia ter os seus negócios, fazer do seu dinheiro o que quisesse e ter um gosto especial pelo coleccionismo de armas. Não, não pode. Não pode ser usurário, nem viver para possuir, nem admirar instrumentos de morte, nem dedicar o seu tempo ao dinheiro. E não pode porque é sacerdote de Jesus Cristo que por definição tem que ser pobre, não violento, generoso e viver não para o lucro, mas para a gratuidade.
A Igreja, neste caso a Diocese de Vila Real, não pode pactuar com estes casos nem assobiar para o lado como se nada fosse com ela. E muito menos fazer de conta que nada se passa, esperando que nunca se descubra os podres de alguns dos seus ministros. E porquê? Porque tem que se lembrar daqueles que como pastor, afinal, têm um lobo. Um Bispo, o pastor de uma diocese, tem que proteger o seu rebanho, não os seus "delegados".
Casos como este são um alerta para que a Igreja, nós os cristãos comprometidos não deixemos de denunciar e agir em conformidade diante de situações que são a negação absoluta de tudo aquilo em que acreditamos. O silêncio é uma forma de cumplicidade. Foi uma atitude semelhante que fez com que a pedofilia alastrasse como erva daninha na Igreja americana. É uma atitude semelhante que faz com que a atracção fatal pelo dinheiro de alguns padres descredibilize tudo o que anunciamos. Se a tua mão é causa de pecado corta-a, dizia Jesus há uns domingos atrás no Evangelho dominical. É mais que tempo de cortar pela raiz a figueira que não dá fruto. Sem pruridos, sem falsas compaixões nem desculpas ridículas como a falta de meios humanos.

Deixo mais uma tira da Mafalda que penso ser oportuna. Bom fim-de-semana.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Mafalda

Hoje lembrei-me da Mafalda. Sim, a maravilhosa criatura do cartoonista argentino Quino. Foi no seminário, no sétimo ano, que a descobri pelas mãos do padre Mendes, um homem que me ensinou imensas coisas, entre as quais o gosto pela BD. Alguns meses mais tarde, a minha mãe ofereceu-me um volumoso volume vermelho que tinha por título (se a memória não me atraiçoa), Toda a Mafalda. Hoje desesperei à sua procura e não o encontrei. Queria aqui colocar, a partir de hoje, e quando me apetecesse, uma tira da Mafalda. Socorri-me da internet e aqui fica uma (peço desculpa mas está em brasileiro). Ficam mais prometidas. É fantástica esta Mafalda.
Para conseguir ler, basta clicar na imagem.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma Oração

O blog do meu amigo Jorge é sempre um espaço de descobertas. Hoje estava lá esta belíssima oração do bom Papa João XXIII que hoje aqui partilho e que amanhã proporei, aos meus jovens companheiros de Laudes, em substituição de um dos salmos. Penso que não cometerei nenhuma heresia.
Como gostava de ter conhecido este homem e sentido o ar de esperança que a sua abertura trouxe à Igreja em meados do século passado. Vinde Espírito de Amor...

Procurarei viver pensando apenas no dia de hoje, sem querer resolver de uma só vez todos os problemas da minha vida.

Hoje, apenas hoje, terei o máximo cuidado na minha convivência: afável nas minhas maneiras, a ninguém criticarei, nem pretenderei melhorar, nem corrigir ninguém à força se não a mim mesmo.

Hoje, apenas hoje, serei feliz na certeza de que fui criado para a felicidade, não só no outro mundo mas também já neste.

Hoje, apenas hoje, adaptar-me-ei às circunstâncias sem pretender que sejam todas as circunstâncias a adaptarem-se aos meus desejos.

Hoje, apenas hoje, dedicarei dez minutos do meu tempo a uma boa leitura. Assim como o alimento é necessário para a vida do corpo, assim a boa leitura é necessária para a vida do espírito.

Hoje, apenas hoje, farei ao menos uma coisa que me custa fazer; e se me sentir ofendido nos meus sentimentos, procurarei que ninguém o saiba.

Hoje, apenas hoje, farei uma boa acção, e não o direi a ninguém.

Hoje, apenas hoje, executarei um programa pormenorizado. Talvez não o cumpra perfeitamente, mas ao menos escrevê-lo-ei. E fugirei de dois males: a pressa e a indecisão.

Hoje, apenas hoje, acreditarei firmemente - embora as circunstâncias mostrem o contrário - que Deus se ocupa de mim como se não existisse mais ninguém no mundo.

Hoje, apenas hoje, não terei qualquer medo. De modo especial não terei medo de apreciar o que é belo e de crer na bondade.

João XXIII, Papa

terça-feira, 27 de outubro de 2009

House (Correcção)

Ontem começou na Fox a sexta temporada de House. Para quem vai acompanhando esta série americana que segue a retorcida personalidade e genialidade do médico que lhe dá o nome, não pode perder os dois primeiros capítulos desta temporada. São duas pérolas que provam que é possível, em televisão e para televisão, ver e fazer obras de arte. São dois episódios onde acompanhamos o protagonista internado num manicómio, numa inversão de papeis (médico que é paciente) e numa peregrinação interior que o levará a colocar-se em questão e a assumir a sua humanidade, nas suas dimensões mais... humanas.
Mas o que me leva a escrever estas (banais) linhas é que o primeiro episódio de ontem recordou-me uma das bandas que mais admiro e acompanho, os Radiohead, porque o seu genérico foi acompanhado por No Surprises. Só por isso, já teria sido um grande episódio. Hoje, sempre que posso, lá estou a ouvir o The Beste of Radiohead.
Só consigo colocar aqui o vídeo ao vivo, mas é melhor que nada:

domingo, 25 de outubro de 2009

XXX Domingo do Tempo Comum

O caminho de Jesus até Jerusalém (até à cruz) aproxima-se do fim. Ao sair de Jericó (última etapa) e acompanhado por uma multidão de discípulos (que já percebemos ao longo dos últimos domingos não terem a mais pequena ideia para onde o seu Mestre caminha) e curiosos, Jesus coloca-se no caminho e eis que fora do Seu caminho, à margem dos que O seguem, surge um cego. Mas, se nos detivermos a olhar atentamente para o texto de Marcos percebemos que estamos diante de um texto bem diferente do de uma cura. Porque sobre este cego são-nos fornecidas muitas informações pessoais: filho de Timeu, chama-se Bartimeu, está sentado à beira do caminho e pede esmola. Somente nos chamamentos de Pedro e André, Tiago e João e Levi, Marcos nos dá tanta informação sobre as suas personagens, o que nos remete imediatamente não para um milagre, mas para o chamamento deste homem e para a sua conversão ao caminho de Jesus.
Ao ouvir dizer que Jesus passava pela sua vida, Bartimeu não detém nem deixa deter o seu grito por salvação, por alguém que o escute, por sair das margens para que a vida, as suas decisões e a sociedade (religião oficial?) o tinham atirado. Grita porque está longe e aos marginalizados ninguém quer escutar nem quer deixar que eleve a sua voz. Grita como nós no início de cada Eucaristia: Kýrie eléêson que, à letra, pede a Deus que nos pegue maternalmente ao colo, que nos embale com seus braços, que nos sorria com a sua tranquilidade, que nos olhe doce e amorosamente nos olhos. Que Deus ficaria impávido diante do pobre, do só, do esquecido, do fruto da cegueira e da surdez dos outros (e também dos crentes)? E Jesus pára. Pára à nossa porta, à nossa beira, ao grito de dor esperançosa que lhe lançamos. Jesus pára e chama (três vezes Marcos escreve a palavra chamar), chama ao encontro, chama ao diálogo, chama ao chamamento, à vocação. E Bartimeu deixa tudo para trás, deixa o pouco que tem: as suas poucas esmolas caídas no imundo manto que recolhia a caridadesinha alheia. E salta porque nada o faz hesitar, nada o faz pensar duas vezes, é a salvação que o chama, é alguém que o quer ver, falar e aceitar como homem que é em toda a sua dignidade. (Confrontem a atitude deste homem com a do rico que se sentia o melhor homem do mundo).
E eis o diálogo: Que queres que te faça? (a mesma pergunta que Jesus fez no Evangelho passado aos ambiciosos filhos de Zebedeu que não sabiam o que pediam) E Bartimeu pede luz, sentido, um rumo, um caminho, Vida com qualidade (bem diferente dos dois irmãos - poder; e do homem rico - vida eterna). E Jesus só lhe diz: Vai. Sai da margem, ergue a cabeça, és alguém querido e amado, não te coloques nem te deixes colocar à margem, olha como nunca estás só nem quando todos te abandonam e esquecem e marginalizam. E assim percebeu, o filho de Timeu, que só há um caminho, que só há um rumo, que só há uma luz: Jesus caminhando para o gesto maior do amor.
Quantas vezes nos sentimos à margem da vida? Quantas vezes nos envergonham as nossas opções que pensamos que nem Deus nos escuta, embala e olha? Quantas vezes nos deixamos calar pelas multidões e pelos seguidores ignorantes do Mestre que em vez de estenderem a mão nos pontapeiam e enxotam para as margens da vida? Meus amigos gritemos bem alto que afinal na Palavra não são os maus costumes nem a crueldade de Deus (sim, a crueldade dos homens está lá bem explícita) que encontramos, mas o Caminho da Luz de um Deus que se abeira dos mais esquecidos, perdidos e maltratados da vida. Sim, ele é injusto porque esquece, não ouve, deixa partir e condena os cheios de si, carregados de vontade de poder, os que procuram estar acima dos outros, os soberbos.
Senhor Jesus tem piedade de mim...