quarta-feira, 29 de julho de 2009

Assim vivo os meus dias

Na segunda-feira saiu a última nota da época de exames. Terminei esta época com uma média de dezassete valores o que é muito bom mesmo. Valeu a pena a dedicação e o trabalho, quase monástico, de mais de um mês embrenhado em apontamentos e textos de apoio.
Os dias vão passando devagar e a minha impossibilidade em passar uns dias fora e na praia tem contribuído para uma insistente preguiça descomprimida que me impede de começar a trabalhar na minha unidade lectiva para os manuais de E.M.R.C. Vamos ver se o fim-de-semana traz novidades e novas possibilidades.
Da minha casa consigo ver a imensidão do mar (foto) e num desses estados contemplativos recordei e reli o Mar Morto de Sophia e fixei este pequeno poema:

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil

Procurei-me na luz, no mar, no vento.

Assim vivo os meus dias...

domingo, 26 de julho de 2009

XVII Domingo do Tempo Comum (revista e aumentada)

Neste e nos próximos quatro domingos vamos ler, quase na totalidade, o capítulo VI do evangelho de S. João, que abre com uma das cenas que mais deve ter impressionado as antigas comunidades: a multiplicação dos pães e dos peixes. Aliás, é um acontecimento que deve ter contribuído para o espalhar a fama daquele profeta de Nazaré que dava de comer gratuitamente e que tinha todas as condições para ser rei. E que rei! Nem seria preciso trabalhar para comer. Por isso, Jesus foge para a solidão, atravessará o lago e, diante dos seus seguidores políticos, denunciará violentamente esta busca de um deus "tapa-buracos" do nosso egoísmo pessoal.
Do texto do evangelho de hoje queria sublinhar a atitude de Jesus (que é a atitude do Pai) diante do homem. O homem é o amigo de Deus, com quem se senta livremente à Sua mesa ("Mandai sentar essa gente"). O homem com quem Deus faz amizade é um homem adulto, livre e independente ("em número de cinco mil"); o homem com quem Deus cria relação pessoal é o homem concreto, real, que tem muito ou pouco ("cinco pães e dois peixes"), que é muito ou pouco.
E Jesus pega em tudo o que o homem é e tem e dá graças ao Pai e distribui por todos. Isto é, o que temos e o que somos é dom de Deus, logo, mais do que coisas nossas (que possuimos) são oferta e se são oferta temos que as partilhar. O milagre de Jesus é o milagre da partilha: colocando o que somos e temos, por mais pobres e simples que sejam, ao serviço de todos Deus faz muito. Mais, faz abundância ("recolheram e encheram dozes cestos") porque não existe escassez de recursos, mas sim de vontades: vejam o exemplo do "economista" Filipe ("Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um") e do pragmático André ("Que são cinco pães e dois peixes para tanta gente?"), ambos colocam-se de fora, como que não fazendo parte da solução, como que não tendo nada para dar aos outros... Como quem não crê que do pouco, Deus faz muito...
Em tempos de crise quando estamos todos à espera que nos resolvam os problemas, que os políticos, os financeiros, as organizações internacionais concertem o que avariaram com a sua avidez, o apelo "político" de Jesus é só um: não esperem milagres, muito menos dos poderosos. Dai o primeiro passo, esboçai o gesto original (de origem e de novidade) da partilha. Algo está nas vossas mãos, pobre multidão esquecida. Esse algo (seja o que for, mesmo que fruto do meu trabalho ou da herança dos meus pais) não é meu, mas é nosso porque é dom de Deus para todos.
Temos que dar o salto de uma igualdade teórica e racional (Cf. Direitos Humanos) para uma fraternidade universal que só nos vem da fé. Temos que passar de uma proximidade conectada (Homo conectus), que nos vem da globalização, para o encontro entre irmãos que, adultos, livres e independentes, assinam a sua radical comunicação e comunhão. Temos que nos aliar com Deus, o grande aliado da humanidade.
Multiplicando os pães e os peixes Jesus procurou que os homens se encontrassem porque desse encontro nasce a abundância. Como iremos ver, nos próximos domingos, eles não o entenderam (e não entendem) e apenas procuraram a resolução dos seus problemas pessoais. Apanharão uma grande desilusão, como veremos...

sábado, 25 de julho de 2009

Um Comentário

O meu amigo (penso que o posso chamar assim) Alírio, que conheci no espectáculo dos Fura dels Baus no Imaginarius de Santa Maria da Feira, deixou uma série de perplexidades num comentário ao meu último post. São várias questões teológicas estimulantes e magníficos pontos de partida para uma boa conversa de verão com um bom e fresco vinho branco ou rosé (que está agora muito na moda). Fica então prometido um momento assim. Na verdade, é extraordinário como a questão à volta da(s) divindade(s) continua a ser algo de verdadeiramente estimulante e polémico, o que reforça a minha convicção de que estamos sempre a falar de um mistério diante do qual a nossa racionalidade não consegue ficar indiferente. E esse é o primeiro passo da fé que, quando o damos (colocando aquelas e outras questões), abeiramo-nos do abismo magnífico e terrível do sentido da vida e do significado do outro. A inquietude é o estado do homem autónomo, racional e livre. É um estado definidor de humanidade, onde são mais as perguntas que as respostas..., onde se jogo o significado do... homem.
Um dia voltaremos a falar destas coisas...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Surpresa

E quando tudo estava preparado para uma semana de férias (bem merecidas) em Tavira, programadas desde inícios de Junho, tudo se altera pelas contingências da vida. Quando esperava ter mais tempo para dedicar a amigos que há muito não vejo, eis que tenho que ficar confinado, de novo, ao meu apartamento (não, não estou com a gripe H1N1). Quando tive que recusar simpáticos convites para comemorar os vinte e cinco anos do Lar Paroquial de Válega ou para passar uma semana de escrita criativa em Barcelona (pensava nesses dias já estar no Algarve), eis que me encontro limitado pela dedicação e carinho que aqueles são meus merecem e pedem.
É impressionante como a vida, que programamos e pensamos dominar, nos prega estas partidas que nos consciencializam de que afinal não somos senhores do tempo nem dos dias. Então de que somos senhores? De nós próprios, da capacidade de enfrentar as contrariedades da forma que melhor nos faça crescer e ser. Ontem ao deitar li uns versos de Ruy Belo que se enquadram no que sinto:

Somos a grande ilha do silêncio de deus
chovam as estações soprem os ventos

jamais hão-de passar das margens.


Muito me abala, mas nada me abate e derrota. E o silêncio de Deus é eloquente sinal da sua presença e do seu conforto. E assim, de margens gastas pelo bater das vagas, continuarei a passar por aqui, o meu istmo de comunicação com o mundo e com os amigos.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Primeiros Dias de Férias

Desde o início das férias, os meus dias têm sido bem preenchidos pela família, pelos amigos e, ainda, por algum trabalho. Ontem tive que enviar para Lisboa mais uns textos para a minha unidade lectiva sobre os novos movimentos religiosos, já em paginação. No sábado, de manhã, estive em reunião com a equipa de elaboração dos referidos manuais: lemos os primeiros capítulos da fascinante unidade lectiva sobre a arte cristã da autoria do José Rui Teixeira. Estou convencido que será um prazer leccionar esta temática tão bem abordada pelo autor.
Na tarde de sábado, celebramos com a família alargada o aniversário da Margarida que, mais uma vez, foi um momento de emoções profundas, de estreitamento de laços e de novidades partilhadas.
Daqui a pouco saio para o Porto onde procurarei bibliografia para a minha unidade lectiva sobre a Igreja, almoçarei com a minha mãe e tomarei um café com o meu amigo José Rui Teixeira.
Nas férias temos que ter tempo para os outros e são muitos os que esperam por um telefonema meu. Vamos ver se para todos encontrarei tempo, já que, no espaço interior, para todos tenho um lugar especial.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

XVI Domingo do Tempo Comum

No evangelho de ontem, Jesus procura com os discípulos um local isolado, onde fosse possível descansarem juntos e avaliarem calmamente a missão que tinham realizado. No entanto, tal movimento foi antecipado por muitos na multidão. É contrastante o ambiente dos dois itinerários: a lenta, poética e meditativa viagem por mar dos discípulos com o seu Mestre; e a apressada, peregrina e ansiosa busca, pelos caminhos da terra, dos mais atentos e desejosos membros da multidão. Os primeiros procuram a solidão e o encontro tranquilo consigo e com Jesus; os segundos buscam desenfreada e ansiosamente o encontro com Jesus que definitivamente os mobiliza. Nesta espécie de duelo, um dos grupos vê frustrada a sua intenção. E quem tem que recuar é quem detém o poder de dizer não; é quem pode pura e simplesmente despedir a multidão e impor a sua vontade. Mas não o faz porque, ao ver aquela multidão, as suas entranhas se comoveram, sentiu como que um aperto de coração, um nó no estômago que todos já sentimos quando percebemos que as lágrimas encontram a sua raiz em algo tão cá dentro que nem sabemos exprimir. Assim comovido e afectado, Jesus nada mais pôde fazer senão ficar com eles porque, na verdade, todos são seus e foi para todos que ele veio.
Também hoje são muitos os que ainda procuram o Senhor. E procuram-no na sua Igreja, procuram-no em cada um de nós seus discípulos. E nós não temos qualquer desculpa para os despedir, para os ignorar, para os repelir, para os deixar sós. São muitos os que fazem um esforço enorme para se manterem fiéis; são muitos os que vencem grandes obstáculos para escutarem e celebrarem a palavra; são muitos os que renunciam a outras propostas para virem ao encontro dos Mestre em nós; são imensos os que sem terem dão, sem tempo vêm, sem fé esclarecida procuram-na, sem rumo buscam-o, sem uma vida digna lutam por reconstrui-la. Andamos demasiado virados sobre nós mesmos, sobre as nossas questões internas, sobre as nossas eficácias e funcionamentos pastorais, sobre os nossos anos paulinos, sacerdotais e afins e esquecemos de olhar para aqueles que se abeiram de nós, despidos de posses e orgulhos, pedindo-nos apenas o nosso amor atento e a nossa (d`Ele) palavra de vida.
Definitivamente, ou acolhemos ou não viajamos na barca do Mestre.
Termino com o "santo" D. Hélder Câmara:

"Qualquer que seja a tua condição de vida
Não te deixes aprisionar pelo saboroso cerco da tua pequena família.
De uma vez por todas adopta a família humana.
Procura não te sentires estranho em nenhuma parte do mundo.
Sê um homem no meio dos outros homens.
Que nenhum problema de qualquer povo te seja indiferente.
Vibra com as alegrias e as esperanças de cada grupo humano.
Faz teus os sofrimentos e as humilhações dos teus irmãos na humanidade.
Vive à escala mundial ou, melhor, universal."

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Finalmente...

Finalmente de férias e ainda a digerir o inacreditável enunciado de exame ontem apresentado. Mas não quero, para já, falar disso. Por vezes, há que viver o momento, e esta é uma dessas horas.
Sei que tenho pela frente a elaboração de mais uma unidade lectiva para os manuais de E.M.R.C., mas dedicarei estas duas últimas semanas de Julho ao descanso para melhor poder abordar mais este desafio. Mas este início, já começou mal porque o meu portátil pura e simplesmente não arranca. Tive que recorrer ao meu velhinho pc, ao seu minúsculo monitor e ao seu irritante teclado (é uma aventura escrever num teclado que falha várias letras!), que estavam esquecidos no quarto de arrumos. E que agora, do cimo desta mesa, olham com indisfarçavel desdém orgulhoso o preferido e avançado portátil que espero não tenha entregue a "alma" ao criador.
Hoje nada digo de jeito, por isso deixo-vos apenas uma oração pelas férias de Tolentino de Mendonça que estes dias descobri no site do secretariado nacional da pastoral da cultura.

Oração pelas férias

Dá-nos, Senhor,
depois de todas as fadigas
um tempo verdadeiro de paz.

Dá-nos,
depois de tantas palavras
o dom do silêncio
que purifica e recria.

Dá-nos,
depois das insatisfações que travam
a alegria como um barco nítido.

Dá-nos,
a possibilidade de viver sem pressa,
deslumbrados com a surpresa
que os dias trazem pela mão.

Dá-nos
a capacidade de viver de olhos abertos,
de viver intensamente.

Dá-nos
de novo a graça do canto,
do assobio que imita a felicidade aérea
dos pássaros,
das imagens reencontradas,
do riso partilhado.

Dá-nos
a força de impedir que a dura necessidade
esmague em nós o desejo
e a espuma branca dos sonhos
se dissipe.

Faz-nos
peregrinos que no visível
escutam a melodia secreta
do invisível.

José Tolentino Mendonça