sexta-feira, 12 de junho de 2009

Estética II

Há poucas horas terminei o meu primeiro exame desta época: Estética II. Não correu mal e dará para positiva, veremos de quanto. Mas o mais importante foi o que recebi desta disciplina: um novo olhar sobre a arte e sobre a vida, de que já, em tempos, aqui fui falando. Deixo apenas aqui uma parte muito pequena de um livro lindíssimo sobre o acto criativo como uma expressão da vida, do pensar e da arte. Algo ao alcance de todos com a sua vida...

"Na origem da beleza está unicamente a ferida, singular, diferente para cada qual, escondida ou visível, que todos os homens guardam dentro de si, preservada, e onde se refugiam ao pretenderem trocar o mundo por uma solidão temporária mas profunda. Fora de miserabilismos. A arte de Giacometti parece querer revelar essa ferida secreta dos seres e das coisas, para que ela os ilumine".
JEAN GENET, O Estúdio de Alberto Giacometti

terça-feira, 9 de junho de 2009

Daniel Faria

O Daniel Faria partiu para junto de Deus há dez anos. Éramos amigos desde 1983. Eu era pároco em Santo Tirso há três anos. Ele vivia no Mosteiro de Singeverga, no mesmo concelho, por isso várias vezes nos encontrávamos. Não tantas como deveriam ter sido. Mas ninguém esperava aquela finta do tempo...
Deixo mais um poema seu, que muitas vezes dei aos meus jovens nas actividades maiores do Verão.





Lembra-te do teu Criador nos dias da mocidade
A tua única herança para os dias da desgraça
Cava fundo o coração para a lembrança
Antes que digas não tenho mais prazer
Antes que a noite seja noite e não vejas mais o sol nem as estrelas nem os filhos]
Antes que voltem as nuvens como a chuva depois da viuvez
Antes do dia em que as mulheres, uma a uma, pararem de moer
Quando a escuridão cair sobre os que olham pela janela
Quando se fecha a porta da rua e o ruído não diminui
Quando se acorda com o canto do pássaro e as palavras desaparecem
Quando a altura se assemelha aos sustos que se apanham no caminho
Quando a amendoeira está em flor e o gafanhoto se torna pesado
Quando o tempero perde o sabor

Antes que a tua única herança seja a lembrança
Antes que o fio de prata se rompa e a roldana rebente no poço
Antes de tudo isto
Põe uma escada e sobe ao cimo do que vês.

A fotografia é do grande amigo comum Joaquim Santos. E se não erro, foi tirada no santuário da Senhora da Lapa, na Serra da Lapa, concelho de Sernancelhe.
Um dia escreveu-me dizendo que eu era a mais antiga das suas amizades... Ainda o é e será...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Eleições Europeias

Diz-se que em política o que parece, é. E, na verdade, nas eleições de ontem o P.S. teve o terceiro pior resultado da sua história, viu o bloco à sua esquerda a ter mais de vinte por cento dos votos e viu a direita a renascer das cinzas e a atingir no seu conjunto quarenta por cento dos votos. É evidente que mais de trinta por cento dos eleitores que costumam votar não o fizeram, mas parece evidente que esse número, nas futuras legislativas, vai-o fazer e vai-se distribuir por todos os partidos o que terá como consequência que, em Outubro, provavelmente, não haverá maioria absoluta de nenhum partido, o que não é nenhuma tragédia, como em Portugal é habitual ouvir-se.
E aqui coloca-se a questão mais importante à democracia portuguesa: trinta e cinco anos de regime democrático e na mais grave crise desde o Verão de 1975 estamos preparados para trocar ideias, colocar sobre a mesa os nossos projectos, as nossas concepções económicas e sociais e governar para o bem comum e não para o bem das cooperações que pululam à volta dos partidos e que paralisam o estado? Sinceramente parece-me que não e isso é sintoma da juventude doente da nossa democracia. E digo isso por diferentes razões, mas hoje fico-me por uma tão simples como triste, que mais uma vez, ontem, pude constatar.
Já notaram como em Portugal se comemora uma vitória eleitoral ou como se aceita uma derrota à imagem do discurso futebolístico? Já se aperceberam que apoia-se um partido como se fosse o clube lá da terra? Cantam-se cânticos adaptados das claques futebolísticas e entoam-se discursos como se se falasse para adeptos? Nunca ouviram seguidores de um partido a remoerem invectivas violentas e condoídas contra os adversários? Só que no futebol ninguém é de um clube por opções racionais ou por eles defenderem um projecto económico ou um projecto de país. No futebol, o adepto é-o porque sim. É uma crença não justificada nem procura sê-lo.
O incompreensível é que, na política, o militante e o simpatizante comportam-se, na sua maioria, da mesma forma. Muitos nem balbuciar um discurso coerente de justificação opcional por A ou por B são capazes. Atente-se nas guerras das facções dentro dos partidos, seja a nível local e nacional: quantas vezes se discutem projectos, ideias e concepções políticas e sociais? Quantas vezes se ultrapassa o discurso pessoal e se apresenta ideias reformadoras? Quantas vezes vingam a amizade interessada, o calculismo e a demagogia? Porque o que importa é vencer o adversário, nem que seja sem o árbitro (povo) ver ou perceber. E depois, existem os muitos que, dizendo que não gostam de política, nem votam tal como os que não gostando de futebol não o vêm nem o discutem nem lhe conhecem as regras. Como se política e futebol fossem a mesma coisa e tivessem as mesmas consequências!
Parece-me que a democracia é uma construção demasiado frágil para se ter uma postura assim: leviana, interesseira e irracional. É uma construção tão lenta e periclitante que não se compadece nem com egoísmos pessoais nem com egoísmos partidários. Talvez o agudizar da crise nos ajude a arrepiar caminho, senão, não tenham dúvidas, os extremismos vão medrar e tudo será mais difícil.

domingo, 7 de junho de 2009

Solenidade da Santíssima Trindade

A festa do tempo comum da Santíssima Trindade é a festa da responsabilidade social do cristão. Não é por acaso que o Evangelho de hoje é o envio em missão dos cristãos para baptizarem os homens em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, em nome do seu Deus: um Deus que é diversidade, que é diferença e que nessa diferença faz unidade. É a festa da responsabilidade social porque o cristão é chamado a construir no mundo esta unidade. Uma unidade que não tolera as diferenças mas que as acolhe porque elas são a radical riqueza da humanidade. Acolhe as diferenças culturais, religiosas, sociais, económicas, políticas porque todas elas nos definem, enriquecem e distinguem como humanidade.
Somos imagem e semelhança do Deus trino e uno: somos uma só natureza (humana) e uma diversidade de pessoas. Só viveremos numa comunhão total com Ele quando formos capazes da comunhão. Somos a Igreja do Pai e do Filho e do Espírito Santo, mas só seremos protótipo para a humanidade de uma comunidade de irmãos e irmãs quando não houver vigários de Cristo, estruturas piramidais e exclusivistas, quando as comunidades forem locais de liberdade de opinião e de celebração verdadeiramente comunitária e integradora sem subordinações e com um verdadeiro espírito de comunhão.
Celebrar a Santíssima Trindade é erguer para o Pai e o Filho e o Espírito Santo uma sentida oração pela convivência humana e pela renovação comunitária da Igreja de Cristo. Se nos limitarmos, neste dia, a piamente contemplar o mistério trinitário sem extrair consequências activas pela unidade na diversidade da humanidade e pela renovação da comunhão eclesial contribuímos para a indiferença de uma maioria e para irrelevância de uma minoria alienada e descomprometida.

sábado, 6 de junho de 2009

Apontamentos

Acabei há pouco o trabalho para avaliação em Filosofia do Conhecimento II sobre a teoria consequencialista da virtude de Julia Driver. Agora está tudo pronto para me dedicar a cem por cento aos exames que começam sexta-feira com a disciplina de Estética. Espero estar à altura. * Na quinta recebi imensos votos de feliz aniversário, a todos os que o fizeram o meu muito obrigado. É sempre muito bom sentirmo-nos recordados. * Ainda na quinta fui jantar a um excelente restaurante de comida sofisticada e a preços delicados. Bebi pela primeira vez um vinho do novo mundo, da distante Austrália, que se revelou de uma frescura superior que amacia o seu grande grau alcoólico. Aliás, no Degusto devemos ter a melhor e mais completa lista de vinhos do país. Impressionante. Vale mesmo a pena. * Ontem chegou a minha irmã Inês e o meu cunhado da sua lua-de-mel nos Estados Unidos e nas Bahamas. Ainda não estive com eles, mas fico muito feliz com a felicidade deles. * Prometi que falaria de outros espectáculos do Imaginarius. Espero ter tempo para o fazer nos próximos dias. * Amanhã é dia de eleições, como é evidente irei votar porque respeito os nossos pais que sonharam e lutaram pela democracia e porque me recuso a pactuar com a abstenção que é uma atitude de nem frio nem quente, morna, típica de uma atitude acomodada, cínica e sem esperança. * Finalmente, o mais importante. Na segunda-feira e na terça-feira realizar-se-á no Porto um colóquio sobre o poeta e meu amigo Daniel Faria sob o nome "E Agora Eu Sei as Coisas Devagar". Como estou em exames não vou poder participar, para grande pena minha. Quem poder que o faça, o programa é aliciante. Ao ver o programa fico felicíssimo por perceber como a obra do Daniel tem sido alvo de muitos trabalhos e estudos. São absolutamente justos e merecidos. Deixo aqui um poema seu com o título Explicação do Sorriso.

A mãe disse-lhe escreve-me
De lá longe para onde vais
E ela disse não é longe casar
E a mãe sorria cega de dor
E parecia de deslumbramento.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Aniversário

Hoje é o meu aniversário. Para grande satisfação pessoal já começaram a chover as mensagens, os mails e os telefonemas de felicidades. Não vou escrever muito. Apenas agradeço com uma gratidão impronunciável aos meus irmãos, aos tios, aos grandes amigos, aos amigos, aos colegas de seminário, de sacerdócio, de docência e da academia e a todos os que se cruzaram comigo ao longo destes 38 anos: tudo o que sou, na sua devida proporção, vos devo. Muito obrigado.
Finalmente, o agradecimento maior para a minha mãe sem ela não haveria este dia, sem ela não teria chegado até hoje, sem ela não teria a bela história de vida que já tenho para contar. Mais do que eu, é a minha mãe que está de parabéns.
Para recordar uma foto em que acho que teria alguns dias ao colo da minha mãe. Era o primeiro filho de quatro. Estavamos em 1971.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Imaginarius 2009

Neste fim-de-semana decorreu em Santa Maria da Feira o Imaginarius, Festival Internacional de Teatro de Rua. Assim, na sexta-feira e no sábado participei entusiasticamente em mais esta magnifica organização do município feirense a fazer ver a muitas e de maior nomeada câmaras deste país.
Hoje vou falar-vos do espectaculo nocturno "O Mundo de Pinóquio", uma co-produção do grupo alemão Titanick Theatre com o Acert e o Centro de Criação para o Teatro e Artes de Rua, que constituía uma parada, que percorria várias ruas feirenses, liderada por um impressionante Pinóquio de mais de sete metros de altura. Este engenho cénico é uma criação do Trigo Limpo teatro Acert.
Pinóquio é o símbolo de toda a criança que, sendo uma criação de adultos, anseia libertar-se de todas as suas manipulações, tornar-se autónoma e, fascinada pelo mundo à sua volta, tornar-se um adulto livre para o poder explorar todo. Ora, a parada mostra-nos o paradoxo deste pensar da criança com o sonho do adulto que tenta não deixar morrer a criança que existe em si e não se deixar instrumentalizar pelas regras sociais. O paradoxo está aqui: enquanto a criança sonha ser adulto, o adulto sonha ser criança e aprende, olhando para elas, que como adulto pode melhor concretizar esse seu sonho, usando toda a sua liberdade e capacidade criativa.
Em toda esta procissão moderna, que não deixa ninguém indiferente nem passivo, acompanham Pinóquio uma série de personagens adultas (militar, cientista, sacerdote, prostitutas, um rei, um mordomo, etc) que, diante do espanto de Pinóquio, lhe oferecem uma festa de dança, de música, de gastronomia, de espuma, de jogos de água, de luz, de pirotecnia e de som. O espanto de Pinóquio é o espanto das crianças diante dos momentos em que os adultos, pelos diferentes constituintes da festa e do convívio, se lhes manifestam como autênticos petizes que, deitando mão de toda a sua imaginação e capacidade técnica, conseguem trazer ao de cima todo o seu espírito infantil, que os liberta e os torna mais humanos e maduros. No espectáculo, Pinóquio vai participando, no festim agradecido que o mundo dos adultos lhe oferece, integrando-se em todas as dinâmicas criadas e dançando ao som de uma música ao vivo, tão delirante como poética que a ninguém era indiferente. Os adultos, num crescendo de saudável loucura e contagiante alegria, vão descobrindo que não só a sua potência criadora atinge níveis espantosos quando aposta no lúdico como espaço de encontro com o outro, como também intuem que quanto mais forem pessoas maduras mais têm a oportunidade de tornar mais vivo o espírito de criança que tanto buscam.
É um espectáculo de mais de uma hora que converge a si milhares de pessoas em que todos querem participar pois sentem que o mundo manipulador em que vivemos apenas nos quer como seres produtivos e consumidores, formatados e sem diversidade, incapazes do sonho e da festa. Não são, hoje, as crianças tão manipuladas económica, politica e culturalmente e, com elas, as suas famílias?
Estão aqui as novas linguagens simbólicas e reflexivas que as instituições mais antigas têm que assumir para não perderem relevância. Não posso deixar de escrever esta provocação sugerida pela minha participação no celebração eucarística de sábado, precisamente na Igreja Matriz de Santa Maria da Feira: Porque estava aquela magnífica igreja tão vazia? Porque é que, numa missa que era da catequese, só se viam sexagenários e, muito pontualmente, crianças, jovens e pessoas da classe etária 25-55? Eram 18,30 e as ruas à sua volta começavam a encher-se de pessoas que buscam linguagens que as motivem, surpreendam e as façam reflectir. Que as libertem das amarras discriminatórias e dos não-valores morais que lhes querem impor. Que encontram nas respostas tradicionais apenas o enfadonho repetir de fórmulas que ninguém compreende nem entende e que a ninguém toca emocional e intelectualmente.

Já que estou sem máquina fotográfica, logo que tiver imagens do evento coloco aqui no blog.